Um Pouco sobre Runas – Parte 2: Os Grupos de Runas e um pouco de suas Histórias

Um Pouco sobre Runas – Parte 2: Os Grupos de Runas e um pouco de suas Histórias

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(Uma imagem ilustrativa de um Irminsûl)

“Entre no Caminho das Runas
E beba da fonte de Urd,
Experimente as frutas de Idunna
Decifre os símbolos do Norte.”
(1)

Os grupos de Runas

Existem muitos historiadores e Runólogos que estudam e pesquisam por anos a fio tanto a origem quanto os grupos de Runas que existiram. Portanto, muitos escritores, principalmente aqueles que inventam alguma runa que nunca existiu, deveriam ter a decência de dizer que são criações próprias e não runas “antigas” ou “tradicionais”, como a tal falada “Runa Branca”, chamada também de “Runa de Odin”: tal runa, criada pelo escritor Ralph Blum, se popularizou em nossa Era ao ponto das pessoas acreditarem que tal runa realmente possui algum valor ou tradição. Não, nenhum Erilaz de verdade usa uma runa criada para ser propagada por modistas, que apenas enxergam as Runas como se fosse um “kit de adivinhação” que você compra numa banca de jornal. Qualquer estudioso de Runas compreende que inclusive existe uma Runa com um propósito similar e muito mais abrangente, que neste caso é a Runa Gar, sobre a qual falarei mais adiante no texto.

Embora acabemos por dizer que as Runas são um “Alfabeto”, tal afirmação não se encaixa, uma vez que não se usa “Alfa, Beta” ou “A,B”, portanto, a ordem não é a mesma e nem o sentido, pois as Runas não foram criadas para ser apenas “letras e sons”. Sua ordem advém de suas runas iniciais: Fehu, Uruz, THurisaz, Ansuz, Raido, Kenaz = FUTHARK. Outras runas são chamadas de FUTHORK, pois seus caracteres mudam de ordem: Fehu, Uruz, THurisaz, Os, Raido, Kenaz; há ainda uma teoria que fala sobre um UTHARK.

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(Um Vegvisír, usado para não se perder em viagens)

Elder Futhark ou Commun Germanic Futhark

O primeiro grupo de Runas que temos historicamente é o Elder Futhark, também chamado de Common Germanic Futhark, datando entre os anos de 200 – 150 antes da nossa Era Vulgar. A origem é incerta e embora haja várias teorias, a mais aceita no meio acadêmico é que possivelmente teve influencia ou veio do contato dos povos nórdicos com os Etruscos, por meio de comércio, pois alguns caracteres  encontrados em escavações deste período são realmente muito semelhantes entre si. Existem as mais variadas teorias, desde os Etruscos até de que foram criadas por um único indivíduo, advindas do Império Romano ou do Latim e si. De qualquer forma, devido a concordância dos historiados e de outros acadêmicos da área, a teoria mais aceita, até então, é a de que vieram do contato com os etruscos.

Algumas variações da ordem das runas ou de suas formas ocorrem, mas não mudam muito seu sentido. Uma mais comum seria o Set terminar com Othala e depois Dagaz, fazendo o caractere OD(Odin). Por outro lado, terminando com Dagaz e Othala, teríamos Fehu como um bem móvel (Gado) e Othala como um bem fixo, ancestralidade ou terras ligadas a mesma. De qualquer forma, isso não interfere no sentido do set em si.

As runas refletem objetos e práticas de suas épocas, como Gado (Fehu), o Auroque (Uruz), Tocha (Kenaz), água e as marés (Laguz), cavalo (Ehwaz), colheita (Jera), Deuses e seus atributos (como Ansuz e Teiwaz) e assim por diante. Como era um povo culturalmente dominado por homens o princípio feminino não possui ênfase, embora exista. As runas eram mais ligadas ao homem e aos trabalhos dos homens. Não há runas para varrer ou cuidar da casa ou dos filhos; não há runas “femininas” da mesma forma em que há runas “masculinas”, podendo-se usar a runa Berkana como a Runa do nascimento e da geração, usada tradicionalmente para proteger as mulheres e as crianças na gravidez e no nascimento; porém, essa runa também fala sobre regeneração em um sentido mais amplo, não sendo uma runa exclusivamente feminina. Claro que isso não limita o uso por mulheres de forma alguma e nem mesmo sua consulta (caso seja usadas como oráculo), mas deve-se lembrar que os tempos eram outros, sem distorcer seu sentido original. Da mesma forma, quem enxerga a leitura é o Erilaz , que o faz através das Runas, portanto, dois jogos iguais poderiam dar leituras diferentes para a mesma pessoa, porém, mais sobre isso será escrito na terceira parte deste texto.

Nos nossos dias podemos usá-las da mesma forma, pois mesmo que as interpretações difiram das originais, onde as questões eram diferentes e mais diretas, mesmo vindo de culturas mais antigas e com modos de vidas bem diferentes das que temos em várias regiões do mundo, podemos fazer uso de seu Poder e de sua sabedoria. O poder das Runas é tão abrangente, que mesmo com todas as diferenças existentes dos tempos, ele ainda permanece para aqueles que as compreendem em suas formas.

Vale lembrar e deixar claro que as runas significam focus em uma vida ‘fora de casa’, como agricultura, pastoreio e cavalos. Há runas para colheita e terra, mas não há runa específica para “casa” ou “cidade”; da mesma forma em que se baseia em uma cultura auto suficiente, não tendo runa para “Rei”, “Rainha”, “Sacerdote” ou “Sacerdotisa”. As Runas possuem uma forte influencia para guerreiros, pois esse era o estilo de vida de muitos povos.

Desde os anos 70’s, inúmeros estudiosos e pessoas diferentes tem colaborado com passos significativos para tentar equilibrar seus significados para serem usados nos dias de hoje, sem fazer com que perdessem seus sentidos originais. Assim como outros “Alphabetos” em uso atualmente, as Runas conseguiram ultrapassar suas limitações históricas.

Este Set é composto de 24 Runas, divididos em três Aettyr de 8 Runas cada (singular do plural de Aettyr é Aett), sendo cada um dos três regidos por um casal Divino: O primeiro Aett é regido por Freyr e Freyja (Fehu); o segundo Aett por Heimdall e Mordgud (Hagallaz) e o terceiro por Tyr e Zisa(Teiwaz).

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(Um exemplo de Elder Futhark com a terminação em Othala e depois Dagaz)

Futhork Frísio/Anglo-saxão

Essas runas são compostas das 24 runas do Elder Futhark mais 4 runas que foram adicionadas pelo povo da Frisia, provavelmente pela mudança de língua, fazendo um grupo de 28 Runas. Pouco depois, os Anglo-Saxões adicionaram uma quinta Runa chamada de Ear, totalizando 29 runas no total.

A língua estava mudando e o modo de vida também. Ao entrar em contato com outros povos, novas necessidades e novos estilos de vida surgiam. A compreensão do mundo também mudava a partir do momento em que duas culturas entravam em choque.

Essa mudança ocorreu entre 550 – 650 da nossa Era Vulgar. O nome mudou para Futhork pelo fato de que a Runa Ansuz foi retirada da quarta posição e dividida; e em seu lugar entrou a Runa Oss. A Runa Ansuz fora dividida em Os e Aesc e posta no final, após o terceiro Aett.

As Runas adicionadas foram Os (no lugar de Ansuz); e após o terceiro Aett temos Ac (Carvalho), Aesc (significado idêntico a Ansuz), Yr (Arco), Ior (Besta Marinha) e Ear (A cova da terra).
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(Runas em uma Scramasax, Século VIII, Rio Thames, Londres)


Futhork da Northumbria

Esse grupo foi o maior grupo registrado de runas na história, sendo composto por 33 runas em seu total, por volta do ano 800 da Era Vulgar. Este grupo é composto pelas 29 Runas Anglo-saxãs mais quatro runas, formando-se assim, quatro Aettyr de 8 Runas mais uma Runa chamada “Gar”, que representava a ponta da Lança de Odin, a Gungnir, o poder em potencial de todas as demais runas e se encontrava em todos os Aettyr e ao mesmo tempo em nenhum.

Entre a mudança das Anglo-saxãs e da Frisia até o Set da Northumbria, houve influência celta e escocesa nas runas, devido a proximidade das culturas e pela forma de vida de tantos povos próximos.

Talvez este grupo de runas seja o mais complexo e menos usado hoje em dia, pois com tantas runas e significados, se torna mais difícil e devagar o seu aprendizado, demandando mais tempo e dedicação para se tornar proficiente em sua compreensão. Não que haja algum set mais “poderoso” do que outro, mas apenas uma questão de complexidade e preferência.

O quarto Aett aqui se chama “Aett dos Deuses” e esse grupo de Runas é composto pelas 29 runas Anglo-saxãs mais as runas Cweorth (fogo espiral, contrário de Naudhiz), Calc (cálice), Stan (pedra) e Gar (Gungnir).

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(Runa Gar, a Gungnir de Odin. A Verdadeira “Runa de Odin”, a qual não pertence ao Elder Futhark e sim, ao Futhork da Northumbria)

Younger Futhark

Embora sejam divididas entre Dinamarquesas e Suecas, os Younger Futhark seguiram um curso diferente e mais simples: aqui o grupo de Runas foi reduzido a 16 caracteres apenas, o que refletia na praticidade da vida dos povos daquela região, conhecidos como Vikings. Tal mudança corria em direção contrária a expansão do Elder Futhark até o set de Northumbria naquela região e seus caracteres estavam reduzidos e com mais de um som para algumas runas.

A forma de vida dos Vikings era bem simples e direta e suas preocupações mais comuns não eram tão complexas para que suas Runas tratassem de assuntos que demandariam ideias filosóficas ou que não fizessem parte do seu dia-a-dia. Não há runas para “amor”, “presente/dom”, “alegria”, “cavalo/confiança” e “propriedade/linhagem”. As runas que falavam sobre relações inter-humanas não violentas foram retiradas. A única ‘Runa-Deus’ é Tyr. As Runas refletiam o estilo de vida de pirataria e invasão onde o ‘guerreiro’ era o modelo de vida perfeito para os homens e para sua sociedade.

O Younger Futhark não possui uma data precisa e ocorreram algumas mudanças regionais, mas a data de um grupo mais próximo de uma definição foi por volta de 800 – 900 da Era Vulgar.

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(Um Exemplo de Younger Futhark, retirado do Vikingrune.com)

Runas Góticas

Os Godos tiveram uma historia bastante longa e sempre usaram as Runas durante sua trajetória, mesmo que em determinado ponto, os convertidos a outras fés usassem uma versão diferente dos que continuavam com seus Deuses. É difícil traçar uma data para suas runas, mas pode-se afirmar que embora compostas de 3 Aettyr de 8 Runas, totalizando as 24 runas do Futhark + uma Runa chamada “Quairtra”, os significados são ligeiramente diferentes do Elder Futhark, com significados mais expansivos em suas áreas e com um toque do cristianismo no final das contas. Os Godos continuaram a usar suas runas mesmo após a conversão e alguns usavam alguns caracteres romanos em substituição a algumas runas de sua escrita.

Na metade do século IV, Um bispo chamado Ulfila construiu um “alfabeto” em que pudesse escrever seu livro sagrado na linguagem Gótica e usou o Elder Futhark como base. Outros caracteres foram retiradas dos gregos ou de suas próprias concepções. Além dos significados do Elder Futhark, o Bispo Ulfila adicionou alguns significados a cada Runa provenientes dos Gregos Helênicos, cristãos gnósticos e cristãos Arianos, criando assim um distinto “alfabeto” mágico.

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(Gotltand Runestone from 8th Century)

Runas Armanen

Criadas por Guido Von List, as Runas Armanen foram usadas pelo Nazismo de Hitler como uma forma de afirmação cultural e patriota. Diversos acadêmicos Nazistas da época tentaram corroborar teorias de que as Runas Armanen eram as “Runas Originais”, e portanto, mais antigas do que o Elder Futhark, e atribuíam suas 18 Runas aos 18 Feitiços que Odin cita no Havamál. Esse grupo foi tido como o único grupo de Runas permitido na época, sob a pena de ser perseguido pelo governo de Hitler. Ao que parece, Guido Von List apenas usou o Younger Futhark como base de seu set de Runas e adicionou mais 2 runas de acordo com suas ideias pessoais. As falácias criadas sobre sua origem não impediram de tais Runas ganharem notoriedade e serem influentes. As runas Armanen também foram as primeiras a serem praticadas com uma espécie de “Yoga Rúnica”, criada por Guido Von List, onde os praticantes simulam a partir de posições corporais as Runas em si, experimentando assim, o Poder de cada Runa em seu próprio corpo. Também há exercícios e meditações como “Mudras Rúnicas” com o simbolismo das runas feitos com posições específicas das mãos e meditações com o intuito de entrar em estados alterados de consciência através do Poder das Runas.

As Runas Armanen possuem alguns caracteres diferentes em suas formas, assim como em suas interpretações. Uma curiosidade é que List também invertia algumas runas mudando seus significados e também seus nomes. Uma runa invertida era chamada por ele como “Daemonium”.

Na Alemanha e nos países que falam o idioma, as Runas Armanen se tornaram quase tão populares quanto as Elder Futhark e a grande maioria dos que usam tais runas, descartam as ideias que perpetuavam com seu sistema de runas na época do Nazismo.

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(Runas Armanen)

Runas Medievais

As chamadas ‘Runas medievais’ não pertenciam a nenhum grupo em específico, sendo ligadas a Deuses e Deusas e usadas para proteções e cura, mas nunca para um jogo.

Algumas dessas runas são Wolfsangel, Erda, UL, Ziu, Sol, Wendhorn, Fyruedal e Wan.

Não havia um grupo em específico e essas runas eram usadas de forma escondida devido ao cristianismo em suas épocas.

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(Wendhorn)

Runas Uthark

Originalmente, este grupo de runas apareceu  na teoria de Sigurd Agrell de que as Runas eram na verdade um código e, como tal, só poderiam ser entendidas se fosse retirada a runa Fehu e a mesma fosse posta no final, formando assim um Uthark. A ideia não foi aceita pela maioria dos estudiosos e acadêmicos da área, mas foi estudada e aceita em alguns meios ocultistas. O Dr. Thomas Karlsson, fundador da Ordem Mágica Dragon Rouge e compositor de várias letras da banda Therion, publicou sua primeira monografia em homenagem ao trabalho de Sigurd de 1932: Uthark – the Night Side of the Runes.

As runas Uthark são usadas na Dragon Rouge ou Ordo Draconis Et Atri Adamantis e possuem uma interpretação mais sombria e interna, tendo inclusive trabalhos, meditações, mantras e sigilos criados a partir de suas runas, que são as mesmas do Elder Futhark, com interpretações mais abrangentes e voltadas ao uso mágico e ao contato com os poderes tanto internos quanto os do universo a nossa volta, incluindo reinos de criaturas mais caóticas e sombrias. Seu uso não se limita ao universo nórdico, o que de fato contribui muito para as práticas dos membros e do uso magico em si.

Embora não haja comprovações largamente aceitas e material histórico para tal teoria, as Runas Uthark são bem conhecidas em alguns meios e usadas dentro da Ordem.
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uthark runa
(Exemplo das Runas Uthark)

“Eu conheço este, o décimo segundo:
Se eu vejo um cadáver balançando de uma corda alta numa árvore,
Então Eu entalho e Eu pinto as Runas,
Então o homem vem para baixo e fala comigo.”
(5)

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*Haverá uma terceira e última parte sobre as Runas.

Notas:

(1) Trecho da música “Uthark” da banda Therion;

(2) Texto criado a partir da leitura do livro “The Complete Illustrated Guide to Runes”, de Nigel Penick, Ed. Element;

(3) O Livro de Nigel Pennick não cita as Runas Uthark;

(4) Existem inúmeras runas pelo mundo, nunca se limitando apenas aos descritos neste texto. Aqui, descrevo as runas dos grupos existentes e mais comumente usados para ‘jogos’, mesmo que nas suas origens e em seus tempos mais runas existiam e que ainda existem em alguns grupos ou pessoas: runas específicas de Deuses e/ou poderes de todos os tipos;

(5) Verso 157 do Havamál, na sequência dos feitiços que Odin possui conhecimento.

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