Amor, Guerra, Sexualidade e Escuridão: Algumas reflexões sobre Afrodite e seus domínios.

Amor, Sexualidade, Guerra e Escuridão:
Algumas reflexões sobre Afrodite e seus domínios.

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E eu com saudades de você
Como uma criança, sozinha, sonhando
Meu coração viaja para
Onde o amor já está guardado em mim
E de imagem em imagem
Vi minhas memórias de você
(1)

   Tanto nas histórias Helênicas quanto nos cultos modernos, assim como nos textos históricos, Hinos religiosos, literatura e na mente e inspiração de muitos artistas por vários séculos, Afrodite pode facilmente ser achada e reconhecida, seja na Literatura ou nos cultos modernos de nossa época.

   Sendo uma Deusa Antiga, inúmeras teorias apontam para que sua origem seja anterior aos Deuses Olímpicos, classificando a mesma como uma Titânide(2), anterior ao próprio Zeus.

   Existem outras versões de que Ela seja filha de Zeus e Hera(3), mas tal estudo não fará parte do texto atual, assim como as teorias de suas origens pré-helênicas e identificações com outras Deusas pelos próprios gregos, também não farão parte do texto de hoje.

   Este texto servirá como uma importante reflexão sobre a natureza da tão famosa Deusa do Amor, da Beleza e da Sexualidade, passando rapidamente por algumas referências a seus atributos e de como distorcemos sua imagem e atributos para que nos seja agradável e até mesmo mais aceita pela maioria, levando uma boa parte de seus ditos seguidores a ignorarem sua natureza real e complexa, que ao mesmo tempo é encantadora, sedutora, perigosa e extrema.

   Não é segredo que Afrodite tem sido retratada cada vez mais como uma Deusa de aspecto puramente maternal e amorosa, como uma mãe divina e compreensiva, principalmente pelos adeptos cada vez mais modernizados, que ao invés de buscarem a complexidade que os Deuses representam, sempre tentam resumir seus atributos aos mais simplórios possíveis, numa tentativa de que tais atributos lhes sejam confortáveis, aceitos e simples em demasia, tirando a profundidade de cada um dos Deuses e das inúmeras lições e interações que podemos extrair através da vivência, o que nem sempre é agradável e nem sempre nos traz deleites, mas dores e lágrimas que marcam nossos rostos para o resto de nossas vidas.

   Afrodite, como uma titânide, teve uma origem violenta e erótica ao mesmo tempo, quando o Titã Cronos castra seu pai com uma foice, fazendo seu órgão genital cair no mar, misturando sangue, sêmen e água salgada, produzindo uma espuma da qual deu origem a Deusa Afrodite(4).

   Através de tal nascimento, aparecendo já adulta, nua e de uma beleza incomparável, temos uma Deusa conhecida pelos domínios do Amor, da Beleza e da fertilidade. Tais atributos são realmente de fato dos domínios da Deusa, mas não podemos esquecer que a mesma possuía cultos em várias partes diferentes e também em épocas diferentes(5), fazendo com que seu culto fosse variado e identificado com inúmeros elementos complexos.

   Nos escritos do passado, Afrodite é descrita como uma Deusa amorosa, celestial, brilhante, aquela que concede o amor para os mortais e é tanto uma amante quanto inspiradora da beleza em si. Porém, Ela também é descrita como temperamental, ciumenta, adúltera, exagerada, vingativa, facilmente ofendida e até mesmo cruel. Em várias de suas histórias, Afrodite é responsável por maldições e assassinato de mortais, Guerras, vingança contra Deuses e seus seguidores, entrando para lista provocar incesto, zoofilia e decepções amorosas que culminariam em maldições ou morte dos envolvidos e inúmeros atos que mostram o quão complexo e implacável esta Deusa poderia ser.

   Afrodite foi amante de vários Deuses e mortais, gerando vários filhos. Mas parecia ter uma predileção especial por Ares, O Deus da Guerra, com o qual traía seu marido Hefesto.

   Os atributos e domínios da Deusa não paravam “apenas” no Amor e na fertilidade, mas também em todas as suas formas, das mais aceitas até as mais repulsivas, das mais serenas e amorosas até as mais extremas e perigosas, exatamente da forma em que o Amor em si existiu e que existe até os dias de hoje. Além desses atributos, Afrodite também dominava a Guerra, mesmo que não fosse uma Deusa Marcial em si, a mesma possuía traços marciais em seus cultos.

   Para dar uma ideia melhor de como Afrodite era vista, adorada e compreendida, podemos recorrer aos seus Epítetos(6), bem comum a todos os Deuses na época de seus cultos.

   Dentre os mesmos podemos citar primeiramente aqueles que se aproximam mais da visão moderna de Afrodite, seus atributos mais conhecidos:

Ambologera – A que adia a velhice;

Basilis – Rainha;

Eleemon – Misericordiosa;

Epistrophia – A que faz o amor acontecer;

Kallisti – A mais bela;

Khruse – Dourada;

Morpho – Formosa;

Ourania – Celestial, Divina;

Pasiphaessa – O brilho-justo;

Dôritis – Generosa, abundante;

Nikêphoros – Portadora da vitória;

Anadyomenê – Erguida do mar;

Akraia – Das alturas, do céu.
___________

 

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   Além das acima citadas, temos os epítetos menos conhecidos (e até mesmo ignorados nos dias atuais) de Afrodite, que carregam consigo mais atributos e complexidade da Divindade, dando a essa Deusa uma visão bem diferente da de uma “santa católica” ou de uma simples “Deusa Mãe”, mostrando que Afrodite é muito mais indomável e caótica, assim como os desejos mortais e imortais, assim como inúmeros elementos do corpo e além do mesmo:

Androphonos – Matadora de homens;

Apostrophia – A que averte (prazeres ilícitos);

Enoplios – A que porta armas;

Epitumbidia – Ela sobre os túmulos, a que anda sobre os túmulos;

Heteira – Cortesã;

Makhanitis – Criadora, encenadora;

Melainis – Negra;

Pandemos – De todas as pessoas;

Práxis – sexo;

Skotia – Escura;

Summakhia – Aliada na guerra;

Tumborukhos – Cavadora de túmulos.

________

   A leitura de seus epítetos e uma breve análise de suas histórias, nos levam a pensar facilmente na desconstrução dessa visão moderna de que Afrodite é uma Deusa de um amor puro e ideal, no que diz respeito a moral hipócrita de nossa sociedade. Talvez possamos pensar no Amor de Afrodite como ele realmente é: Amor. O Amor é um dos sentimentos mais complexos da humanidade, levando desde as histórias inspiradoras e emocionantes até as tragédias e excessos que envolvem desde violência, vingança e até mesmo a assassinatos. Ouvimos muitos dizerem “isso não é amor”, mas como julgar ao certo qual a forma “certa” de amar, uma vez que todos nós estamos sujeitos aos caprichos de certas paixões e, mesmo aqueles que andam o Caminho há um bom tempo, ainda se pegam em situações delicadas em que muitas decisões requerem muitos mais do que “seguir o coração”. Posso ir além e dizer que aqueles que matam e se matam em nome do amor, podem realmente ter “seguido seus corações” e, pelo medo e reprovação alheia, a sociedade julga de forma hipócrita o que “pode” e “não pode”, o que é “aceitável” ou “não aceitável” pela massa, sendo que nos bastidores, muitos passam por problemas e/ou situações benéficas para si mesmas “por amor”.

   Quando lemos alguns desses Epítetos como, por exemplo, “Matadora de Homens”, podemos interpretar de inúmeras formas, porém, não se deve esquecer que não se trata penas de metáforas, mas de que realmente os atributos da Deusa também estão ligados ao ato de matar. Assim como várias outras faces de Afrodite, como Cortesã, ligando seus atributos a prostituição, assim como suas sacerdotisas também desempenhavam tal papel em seus templos.

   Em outra visão, podemos considerar Afrodite como responsável por tudo aquilo que nos inebria os sentidos, por todas as nossas paixões, das quais os seres humanos são brinquedos e ferramentas: dentro dessa perspectiva, todos nós estamos sujeitos as paixões a cada dia, desde as mais imperceptíveis, das quais julgamos sermos livres e de estarmos totalmente no controle, até as mais absurdas que fazem as pessoas perderem completamente o rumo das coisas, trazendo a tona comportamentos diferentes dos usuais. Afrodite, nessa visão, seria a realidade sedutora ou ainda a fantasia que inebria os sentidos: Partindo desse princípio, a complexidade e nível de atuação dessa Deusa é realmente algo onipresente, mais do que qualquer divindade que exista, pois independentemente de seu nome ou poderes serem conhecidos, todo o ser vivente está sob seus domínios, seja de forma consciente ou inconsciente.

   Neste simples texto, que aborda ideias complexas, apenas aponto para uma direção a ser contemplada, perguntando aos leitores se os mesmos entendem que inúmeras ideias sobre “como amar” ou “o que é amor” realmente são a realidade ou se todas as respostas comuns, que acabam por ser semelhantes umas as outras, são parte de uma cartilha ditada pela sociedade moralista e ilusória; ou ainda pelos dogmas da religião dominante, que diz que amor é “se sacrificar pelo próximo” e o quanto tais ideias foram introduzidas em nossas mentes desde que éramos crianças até nossos dias, fazendo-nos crer em várias ilusões e nos impedindo de saber realmente como é que NÓS amamos através de nossas próprias experiências, ao invés de seguir algo pré-determinado de “certo” ou “errado”.

   Afrodite é muito mais Antiga do que os dogmas e conceitos moralistas não somente de nossa sociedade, mas de muitas outras sociedades e costumes e, tentar encaixar tal divindade (assim como muitas outras) em algum parâmetro moderno e adaptado, para que sirva ás suas próprias limitações, não possui sentido verdadeiro, apenas ilusório.

 Apenas reitero a complexidade e profundidade não somente de Afrodite, mas também das Deusas com domínios e atributos similares, pois o Poder feminino que é demonstrado em suas histórias não é simples e nem tampouco limitado como os praticantes modernos tentam resumir em seus cultos pessoais.

   Não existe uma forma ‘certa’ de amar, apenas o amor em si, com toda sua beleza e poder, seja para criar ou para destruir. Pois não há amor sem dor e nem dor sem amor, independentemente da forma.

 ________

 

Eu imploro pra te servir, seu desejo é minha lei
Agora feche os olhos e me deixe amar você até a morte
Eu devo provar que eu quero dizer o que estou dizendo, implorando
Eu digo que a fera dentro de mim vai pegar você, pegar você, pegar…
(7)

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Notas:

(1) Trecho da música “J’ai le Mal de Toi” (Eu sinto saudades de você) da banda Therion;

(2) Titânide é o feminino de Titã, que se refere a primeira classe dos Deuses gregos, anteriores aos Deuses do Olimpo;

(3) Além dessa versão, há também uma ideia de discriminação de duas Afrodites: uma celestial (Titânide) e a outra mais terrena, filha de Zeus e Hera (Olímpica), sendo,portanto, uma a Afrodite Ourania (Afrodite Celestial) e a outra a Afrodite Pandemos (Afrodite de todas as pessoas comuns), fazendo referência a um Amor Celestial e o outro ao Amor Físico;

(4)  Hesíodo o associou a “aphros” (espuma), interpretando-o como “erguida da espuma”;

(5) Afrodite possuía cultos por toda a Grécia e além, como por exemplo em Chipre, Sicília, Síria, Ática, Cária, Gália, etc… onde, inclusive, possuía epítetos locais, como Kypria (de Chipre), Syria (da Síria), etc;

(6) Epítetos são títulos que os Deuses carregam e que atribuem qualidades. São nomes pelos quais são chamados e conhecidos;

(7) Trecho da música “Love you to Death” (Amar você até a Morte), da banda Type O Negative.

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