Um Pouco sobre Runas – Parte 1: Conceitos tradicionais e falácias modernas

Um Pouco sobre Runas – Parte 1: Conceitos tradicionais e falácias modernas
Näsby Odensala, Uppland, Sweden
(Pedra Rúnica em Näsby Odensala, Uppland, Sweden)

Abra a Runa e a fé do forte e do corajoso!
Abra! Deixe os Deuses do seu coração e da sua alma mostrarem o Caminho”.
(1)

Como algumas pessoas sabem, devido ao advento da nossa “Era de informação”, inúmeros conhecimentos que antes eram ocultos ou específicos de algum grupo ou região, hoje tornaram-se abertos e propagados mundialmente. Seria uma ótima notícia se tais  conhecimentos fossem passados de forma séria e estudados como exatamente eram, mesmo que seja somado ao repertório e a interpretação de nossa Era; afinal, tudo o que é aprendido e repassado aos mais novos carrega uma Marca advinda de seu último detentor, de forma que o conhecimento fique sempre mais carregado e rico, trazendo toda uma linhagem e conhecimento para aquele que passa a deter tal conhecimento. Infelizmente, tais conhecimentos são distorcidos por aqueles que recebem e são passados de forma errônea: não são compreendidos por quem aprende e quando são passados adiante, são distorcidos para preencher as lacunas pessoais de cada dito praticante ou ainda daqueles que ousam usar o título, arbitrariamente, de “Runamal” ou Erilaz(2).

Aqui falaremos um pouco sobre as poderosas Runas trazidas da morte pelo Deus Odin, o Pai de Todos, o Caolho, o Velho, Wotan, Woden e muitos outros nomes usado pelo Deus dos Deuses.

Ao invés de citar como Odin alcançou as Runas, usaremos uma tradução do texto original das palavras do Pai de Todos:

138.”Eu sei, que eu fui suspenso
na árvore fustigada pelo vento
por nove noites inteiras,
ferido pela lança
e devotado a Óðinn,
eu mesmo para mim mesmo,
na árvore
que ninguém sabe
de onde todas as raízes correm.”

139.”Não me alegraram com pão
nem com o chifre de beber,
eu olhei para baixo,
eu apanhei as runas,
as peguei gritando,
e eu cai dali.”

140.”Nove poderosas canções
eu consegui do famoso filho
de Bölþorn, pai de Bestla,
e um gole eu adquiri
do precioso hidromel,
vertido do Óðrerir.”

141.”Então eu alcancei o florescimento
e me tornei sábio,
cresci e me tornei poderoso,
palavra por palavra
eu encontrei palavra,
proeza por proeza
eu encontrei proeza.”
(3)

Odin sofreu flagelos por nove noites e alcançou a Morte para adquirir as Runas. Com o Poder das mesmas ele ressuscitou e trouxe tal conhecimento e poder para os Deuses e para os homens.

Uma das coisas que realmente demonstra a total falta de conhecimento e de uso para as Runas é a limitação que os ditos “runamal” ou “Erilaz(4)” propagam ao compartilhar conhecimentos limitados ou estritamente pessoais a respeito desse grande tesouro trazido da morte pelo Deus Odin. De tais limitações poderia citar o simples fato de que se utilizam das Runas apenas como oráculo, esquecendo que esse é apenas um dos muitos usos das mesmas. Existe uma infinidade de usos para as Runas e o “jogo” não deveria ser sua única conotação, chegando ao cúmulo de ser encaixadas na mesma classificação dos oráculos, como se fosse “mais um”. As Runas eram usadas de inúmeras maneiras, seja tatuadas, pintadas, gravadas em pedras, armas, escudos, armaduras, árvores, cama, chão, em construções, portas, instrumentos  ritualísticos, ossos…eram usadas magicamente e/ou como auxiliadoras em coisas práticas que iam desde a julgamentos, amor, nascimento, maldições, adoecimentos, curas, ataques, morte, invocações, viagens e todo e qualquer tipo de interação/ação que alguém de suas tão variadas épocas podiam fazer.

Aegishjalmur_Runewhell
(Aegishjalmur dentro de uma Roda Rûnica)

Tipos de Runas

Abaixo darei um pequeno resumo de alguns tipos de Runas e alguns de seus usos:

Malrunes

São runas cuja magia está relacionada com a palavra – São fórmulas rúnicas faladas, invocadas ou cantadas para atingir um resultado desejado. Estão relacionadas á poesia, á invocação e em todas as áreas onde as palavras são importantes.

Usadas normalmente em ações legais, colocando-as nas paredes, muros, pilares ou assentos de onde o caso será tratado.
(Ex: Os, Aesc (Ansuz))

Hugrunes

São runas de pensamento e do poder mental e são usadas para exceder a capacidade mental. Tradicionalmente são pintadas no peito e em “partes secretas”. Simbolicamente ligado a um dos corvos de Odin, Hugin (memória). As Hugrunes e as Malrunes são ligadas diretamente.
(Ex: Mannaz, Perdhro)

Sigrunes

Runas de sucesso e vitória, colocados em armas, ferramentas, instrumentos e roupas antes do evento em que o sucesso é necessário. Normalmente os objetos são nomeados e recebem o poder solar da runa Sowulo. Enquanto inscreve as runas, o Erilaz invoca o Deus do trovão, Thor, duas vezes.
(Ex: Sowulo, Teiwaz)

Limrunes

Para trazer pessoas doentes á saúde, tradicionalmente essas runas são inscritas ao sul do tronco ou das folhas da árvore.
(Ex: Uruz, Dagaz)

Biargrunes

São runas de cura mais especializadas, ligados a uma árvore específica: a bétula. Eles invocam a Deusa do parto, conhecida como Berchta ou Frau Percht, para realizar um nascimento seguro. Elas são usadas para proteger as mães e os seus bebês após o nascimento. As Biargrunes incluem a Deusa-runa Biarg ou Berkana. Essa é a runa que representa pureza e novos começos.
(Ex: Berkana)

Ramrunes

São runas usadas magicamente. Essas poderosas runas são carregadas com poder por rituais.

Wendrunes

São runas escritas de trás para frente, sendo escritas ao contrário (da direita para a esquerda) tendo seus caracteres invertidos. Acredita-se que carreguem poder mágico dessa forma.

Trollrunes

São runas que nos ajudam a nos trazer em comunhão com realidades de outros mundos, incluindo a divinação. Também usadas em encantamentos.
(Ex: Kenaz, Calc)

Swartrunes

Literalmente “runas negras”, são caracteres necromânticos usados por feiticeiros para se comunicarem com os mortos. Essas runas são ligadas ás Trollrunes.
(Ex: Eihwaz, Ear) (5)
(6)

Não devemos esquecer que a concepção de ‘separar’ o divino do físico é uma concepção moderna, pois uma Runa (como a Runa Sowulo) gravada em uma espada para se ter sucesso na batalha, não era algo imaginado de forma simbólica: era para matar seus inimigos e vencer a batalha em si. A “Proteção” (De uma Runa Elhaz, por exemplo) não era apenas espiritualmente, mas posta em seu escudo ou corpo para que nada e lhe atingisse. As pessoas confiavam nos poderes das runas; essa mania fraca de acreditar de forma “simbólica” é um advento moderno que não a sério os Poderes que se supõe possuir ou conhecer.

Além dos aspectos das Runas como ferramentas práticas do dia-a-dia, ainda temos outros tipos de símbolos Rúnicos, como as Bindrunes – que eram Runas ‘atadas” para se obter uma única Runa com poderes combinados; também eram usadas para marcar propriedades e nome de famílias, assim como para marcar animais e bens em geral, normalmente mesclando runas e criando um novo símbolo que combinava seus poderes, como uma Bindrune. Também haviam as “Rodas Rúnicas”, onde se inscreviam Runas em um círculo, fazendo símbolos poderosos, como por exemplo o famoso Aegishjalmur(7), que era um sigilo usado entre as sobrancelhas e também sobre escudos para trazer terror aos inimigos e também uma poderosa proteção.

Era comum o Erilaz carregar um cajado rúnico, contendo inscrições de título e formas de proteções. Normalmente trazia encantamentos rúnicos com finalidades que englobassem seu dia-a-dia, incluindo proteção ou sucesso em combate.

Muito poderia ser esperado daqueles que conheciam os segredo das Runas e todos os que possuíam tais conhecimentos eram procurados e também temidos pelo poder que possuíam e pela compreensão do mundo dos homens e dos Deuses, bem como seus mistérios e poderes.

Portanto, caso seja um estudante de Runas, lembre-se sempre que Odin não cometeu o sacrifício de si mesmo para si mesmo apenas para ter um conjunto de pedras de jogo, mas uma imensa e poderosa ferramenta para ser conhecida pelos sábios.

“Ele tocou a Harpa com toda a sua fúria,
Para a mais linda de todas as limeiras,
E extraiu todo o poder dos braços do Troll,
Então as Runas lhe prometeram sorte”
(8)

Valknut runes 2
(Valknut dentro de uma Roda Rúnica)

Na próxima postagem irei citar os grupos existentes de runas e um pouco sobre cada uma delas e os conceitos e visões de mundo exigido pelos Antigos para compreender as Runas e sua linguagem complexa para os demais.

Notas:

(1) Trecho da música “The Invincible” (O Invencível) da Banda Sueca Therion;

(2) Um dos nomes dados a quem entende os segredos das Runas;

(3) Trecho do Havamál (as máximas de Har/Odin), verso 138 – 141, tradução feita por Marcio Alessandro Moreira;

(4) Título usado para os que possuíam a Sabedoria e conhecimento prático das Runas;

(5) Os exemplos de runas que descrevo não são fixos, pois cada runa engloba uma série de significados, símbolos e poderes que não se limitam a apenas uma área. Dependendo do uso de cada runa, pode-se colocá-las em um “grupo” diferente, embora no final, a nomenclatura em si não seja importante, desde que se saiba usar cada runa propriamente em suas essências individuais;

(6) Retiradas e compiladas do “Complete Illustrated Guide to Runes” de Nigel Pennick, pág 90-91, Ed. Element;

(7) Traduzido como “Elmo do Terror”;

(8) Trecho da música ‘Villeman og Magnhild’ da banda In Extremo.

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4 Respostas para “Um Pouco sobre Runas – Parte 1: Conceitos tradicionais e falácias modernas

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