Conceitos sobre Instrumentos Mágicos e suas reais necessidades

Conceitos sobre Instrumentos Mágicos e suas reais necessidades

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São iguais o belo e o feio; andemos da névoa em meio.”
(1)

Quem nunca imaginou a figura da Bruxa com caldeirões, vassouras e um Familiar? Com alguns aparatos feito de ossos e partes de animais ou até mesmo um crânio humano?

Como não pensar no mago traçando seus círculos geométricos variados com cálculos e formas simétricas, usando uma espada ou bastão?

Da velha feiticeira com suas ervas e plantas? Com seus patuás(2) e símbolos populares?

Quem nunca viu ou ouvir falar de benzedeiras que utilizam plantas para benzer e retirar doenças e mal estares de outras pessoas, seja com arruda(3), espada de são Jorge(4) e até mesmo brasas ou óleos?

A mulher vidente que usa uma bacia com água especialmente preparada ou um espelho mágico para ter visões proféticas ou ainda o Erilaz(5) que usa suas runas com um pano próprio para seus jogos ou a runa em si para um encantamento; visões interessantes e até mesmo estereotipadas em comparação com o conhecimento popular.

Há quem diga que aqueles que praticam A Arte da Magia, devem possuir inúmeros aparatos pré-estabelecidos, normalmente ligados a sua própria Arte, seja em qualquer de suas formas e expressões. Há quem diga que tais ferramentas são indispensáveis e que sem o seu uso o praticante ficaria limitado e até mesmo impossibilitado de fazer uso de inúmeros poderes ao seu dispor.

Este ensaio tem como objetivo divagar e expor alguns conceitos relevantes ao que chamamos de “Aparatos Mágicos” ou “Instrumentos Mágicos”.

Nas histórias antigas, muitos heróis possuíam objetos mágicos e os mesmos muitas vezes eram decisivos para a vitória (ou desgraça) dos envolvidos. Podemos citar muitos desses objetos, sendo os mais famosos o Graal e a Excalibur das histórias Arthurianas(6); a Flauta Mágica do Flautista de Hamelim(7), que poderia hipnotizar qualquer animal ou pessoa; a Espada Gram (também conhecida como Balmung ou Nothung)(8), Usada por Siegfried para matar o Dragão Fafnir.

Os Deuses também possuíam inúmeros objetos mágicos e sagrados, como a Lança de Odin, a Gungnir(9); o Martelo sagrado de Thor, o Mjölnir (10); o capacete de Hades, o Deus do submundo(11); Os Relâmpagos de Zeus(12); O Arco e a Lira Mágica de Apolo(13); o Tridente de Poseidon(14) entre muitos outros de tantas outras histórias divinas.

Não obstante, a humanidade sempre tivera fascínio, em todas as culturas, por objetos sagrados ou imbuídos de capacidades ou poderes especiais, fossem árvores e ervas com propriedades mágicas, espíritos naturais de locais, partes humanas e de animais, espadas, mantos, anéis, símbolos dos mais variados e muito além.

Quando falamos em Magia, falamos de um universo completamente novo nas questões que dizem respeito ao tipo de visão de mundo e da percepção de cada pessoa ou grupo. Não estamos falando de fantasias, pois os objetos sempre tiveram um papel prático, seja os pertences individuais dos Deuses ou das pessoas ao longo da história.

O Conhecimento popular, bem como seus objetos, também fazem parte do cotidiano, muito mais comum no dia-a-dia do que se pensa: no folclore brasileiro(15) existem inúmeros objetos usados por todo o tipo de gente, como a figueira(16), o pé de coelho(17), a ferradura(18), um espelho virado para porta de entrada da casa(19), uma espada de são Jorge ou uma pimenteira plantada em um local visível na entrada de casa(20); andar com algumas folhas ou sementes na carteira ou na bolsa(21), o uso de carrancas(22) em entradas e inúmeros costumes do tipo em que se dependa de objetos e de suas propriedades mágicas.

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(Carrancas)

Tolo é aquele que não enxerga o poder nas suas mais simples formas.

Na Bruxaria entendemos que o bruxo é aquele que entende o poder contido nos costumes tanto de sua terra quanto de outros, sabendo encontrar o poder ou o uso prático para tal, bem como as energias e as ferramentas que julgar necessárias ou úteis.

Quando falamos em aparatos ou ferramentas mágicas, estamos nos referindo a objetos de poder que podem guardar energias, fazer contato com outros seres ou até mesmo servir de base para funções pré-estabelecidas. Cada tipo de “meio mágico” possui seus aparatos mais comuns, sendo atualmente os mais conhecidos os usados na Magia Cerimonial, mais popularizados, ironicamente, pela Wicca de Gerald Gardner, com suas versões de Espadas, Pentáculos, Cálices e Bastões; o que devemos apenas ressaltar que de forma alguma esse sistema possui origem camponesa ou “pagã”, pois como poderiam camponeses analfabetos fazerem uso de Espadas com inscrições mágicas, Pentáculos com sigilos geométricos, bastões com cristais (ou quartzos) e inscrições místicas e Cálices decorados no lugar de qualquer copo rústico de madeira ou chifre? Imagine ainda traçar círculos simétricos um dentro do outro? De forma alguma estamos falando de camponeses, mas de um sistema mágico bem racional e calculado ao invés de algo com uma origem “do campo”.

Longe da bruxaria ter origem apenas ou limitar-se as matérias “do campo”, a Arte sempre esteve em transformação e continua da mesma forma, podendo os bruxos absorver e usar em suas próprias práticas qualquer elemento que lhe seja útil, pois o Poder em si não possui limitações ou algum dono, mesmo que qualquer um tente clamar alguma legitimidade sobre tal. É verdade que inúmeras bruxas usam aparatos mágicos variados e é verdade que os Altares ou objetos sagrados pessoais sejam realmente variados, mas de forma alguma há alguma preocupação categórica a respeito de suas origens, mas sim, de sua utilidade para com o praticante.

Inicialmente, o bruxo deve ter a mão tudo o que precisa, o que inclui, principalmente, ele mesmo. Isso quer dizer que antes de querer ‘possuir’ objetos de Poder, o mesmo deve ter Poder por si só. Não é uma questão de comparação com alguém desarmado contra alguém com uma arma: quando falamos de Poder as variáveis são tantas que não faz diferença de um Andarilho possui mil ferramentas e sigilos em seu poder, se o outro for realmente capaz, basta verter um pouco do próprio sangue, fazer uma libação correta, buscar conhecimento através do mundo onírico ou até mesmo entoar as palavras certas quando necessário. Outro fator extremamente importante é que as ferramentas todas dependem do poder pessoal do praticante, uma vez que será o mesmo quem irá imbuir as ferramentas com o mesmo. Dado a essa base, até mesmo se o objeto for consagrado a alguma Divindade ou Entidade, dependerá do Poder Pessoal do praticante para que seja possível a conexão e será o próprio Poder do mesmo que irá decidir o “nível” de conexão com tais forças, portanto, não importa se algum objeto seja sagrado a algum ser muito poderoso, pois se o Andarilho não possuir Poder pessoal o suficiente, o mesmo não será capaz nem de canalizar e nem de acessar tais poderes ou atributos de forma satisfatória.

Outras utilidades de objetos e armas rituais são a intenção de demonstração e concentração de Poder e Defesa, tanto para se defender de forças externas quanto para ameaça-las ou impor algum respeito ou limite. Mais uma vez temos o fator básico do poder pessoal do praticante, pois de forma alguma o mesmo será “temido” ou “respeitado” por qualquer entidade simplesmente por portar um Bastão/Cetro ou uma Espada, se o mesmo não for capaz de usá-lo de forma correta. Da mesma forma, ninguém deveria ser dependente de tais instrumentos, pois além de não poder carrega-los para todos os lados durante o dia-a-dia, coisas como “muletas” são extremamente dispensáveis no Caminho, sejam pessoas, meios, desculpas esfarrapadas ou até mesmo objetos. Os Espíritos respeitam aqueles que merecem e/ou aqueles que os mesmos sabem que devem respeitar, seja por um motivo ou por outro.

A função de alguns aparatos mágicos são o de reforçar a vontade do praticante, canalizando e direcionando sua própria vontade. Outros creem que algumas entidades temam certos símbolos ou objetos ou ainda que alguns os agradam ou atraiam. Todas as afirmações podem muito bem estarem corretas, mas o foco aqui seria o praticante, pois um espírito jamais temeria um praticante fraco e incapaz, mesmo que usasse, por exemplo, um bastão feito de um metal específico, pois seria como uma criança com uma arma descarregada: completamente inofensiva aos olhos de um adulto, podendo impressionar apenas aqueles que não entendem nada do que está ocorrendo tendo suas impressões apenas pelo que seus olhos limitados podem contemplar, achando que a criança nesse caso representaria um risco a vida de outras pessoas.

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Uma melhor definição seria o da velha comparação – a grosso modo – dos aparatos mágicos a “baterias”, onde o Andarilho em si, usando seu próprio Poder, carrega o objeto pouco-a-pouco, resultando em um objeto mais poderoso com o tempo de uso ou presença em rituais. Neste caso, novamente, se o Andarilho não possuir uma Verdadeira expressão, seus objetos não terão poder algum.

A melhor forma de imbuir Poder em objetos mágicos basicamente é seu uso. Há ainda alguns que usam elementos físicos para imbuir seus objetos, o que realmente faz muito mais sentido do que viver no mundo do simbolismo, isolado dentro de casa. Seria possível, por exemplo, imbuir Runas com o Poder Solar, deixando-as expostas ao Sol; imbuir espelhos ou lâminas com o Poder Lunar, deixando-as expostas sob a Luz da Lua Cheia ou da fase que lhe servir e deixando-o coberto por um pano negro para preservar sua energia e impedir que a luz do sol lhe toque. Há ainda enterrar um objeto, alimentá-lo com sangue, banhá-lo no mar e em água doce, passar literalmente pelo fogo e pela fumaça, por ervas sagradas e óleos. Não há realmente um método específico, mas um Andarilho que saiba o que está fazendo.

O texto não possui o objetivo de desvalorizar os aparatos mágicos, mas de incitar a capacidade de reflexão quanto as reais necessidades que isso possa representar. Aquele que trabalha pelo próprio desenvolvimento e pela busca da sabedoria deve entender que a principal ferramenta é a própria pessoa e não aparatos externos.

Ferramentas e objetos são bem vindos, desde que se consiga traçar alguns parâmetros e nunca deixar isso lhe controlar.

Do que adianta mil proteções para se defender daquilo que você mesmo chama (23)? Tal questionamento me fez pensar na época em que começava a tratar com certas entidades e isso me trouxe boas vantagens e aprendizados. Após um rito carregado de proteções, quem não garante que você poderia ser “pego” a qualquer hora do dia e da noite? Ou ainda, com tantas proteções, a confiança do praticante certamente estaria abalada, pois em algum lugar de sua mente, ele estaria vigiando suas proteções e limites de espaço ritual, sendo facilmente manipulado (ou induzido) a algum erro despercebido que poderia muito bem servir como uma grande desvantagem, fazendo sua vontade e segurança pessoal ruírem como um castelo de cartas através do medo.

A beleza e estética, assim como muito dos rituais mais bem planejados e detalhados, também possuem a função de nos incitar ao trabalho mágico, não sendo apenas funcional em sua composição, mas acionando nossa vontade através de símbolos, levando-nos a um estado mental mais aproximado do que se deseja. Tais atos também devem ser transpassados com o tempo, fazendo com que seus ritos fiquem cada vez menores e Poder cada vez mais rápido de ser acessado. Textos pomposos viram frases e frases se tornam palavras ou sigilos. Assim também acaba ocorrendo com muita parafernália ritual.

Por trás de cada instrumento há uma vasta história e a maioria não faz ideia dos atributos dos mesmos, tendo um simbolismo simplista para associar seu uso. Às vezes, vale mais a pena uma “Pedra do Diabo(24)” na mão e bem carregada, do que uma Baqueta ou Espada Ritual com toda a sorte de símbolos mágicos entalhados sobre a mesma.

Aos poucos, com a experiência de cada Andarilho, seus respectivos objetos ligados à magia aparecerão com o tempo, funcionando como “baterias” e conexões com certos poderes e influências e, no final das contas, vale muito mais objetos carregados de história (e poderes!) do que toda uma coleção de aparatos pré-estabelecidos por alguma linha de magia específica, dizendo o que é necessário e o que não é; o que é essencial para se começar um trabalho mágico. O problema está justamente nesse tipo de ideia, pois o necessário para se começar trabalhos mágicos é o Poder pessoal do Andarilho, bem como sua confiança e capacidade de lidar com assuntos místicos e ocultos de forma natural ao invés de sentir uma necessidade de “se armar” como se seu contato com as forças primitivas de nosso mundo (e de outros) fosse uma eterna guerra onde seus escudos e suas armas fossem uma real necessidade ao invés de apenas ferramentas das quais nada mais são do que escolhas pessoais para seus próprios fins.

No final o seu Caminho nada mais é do que o resultado de suas Escolhas, mesmo que você não tenha total ciência das mesmas.

Bênçãos e Maldições.

“O Fanatismo é um Escudo para os ignorantes.”
(25)

An Incantation, 1773, John British Dixon
(An Incantation, 1773, John British Dixon)

Notas:

(1) Macbeth, Ato I, Cena I.

(2) Patuás são amuletos normalmente envoltos em pano ou couro com finalidade e proteção ou assistência ao indivíduo que o uso, podendo ter em seu interior uma grande variedade de elementos, como cruzes, sementes, pedaços de cordas, plantas, cascas, grãos, ossos, etc. Os Patuás foram popularizados pelas Religiões Afro-brasileiras;

(3) Ruta graveolens;

(4) Sansevieria trifasciata;

(5) Erilaz é um termo usado para indicar um “mestre de runas” ou “magista”, o qual possui a capacidade de fazer efeitos mágicos com Runas;

(6) Das histórias, lendas e romances sobre o Rei Arthur, a távola redonda e Avalon;

(7) Embora não seja oficial que sua flauta fosse “mágica”, como falamos aqui sobre ‘dar poder aos objetos que usamos’, a flauta em questão poderia ser considerada carregada de poder pelo próprio flautista;

(8) Existem várias versões sobre a Espada Gram e seus nomes, inclusive na ópera de Richard Wagner, Der Ring des Nibelungen (O Anel dos Nibelungos); sendo esta última uma obra de ficção;

(9) Lança do Deus Odin confeccionado a partir da Ygddrasil, a Árvore dos Mundos; era dito que a lança nunca errava e sempre matava seu alvo;

(10) A Arma do Deus do Trovão estava entre os itens mais poderosos nas histórias nórdicas, sendo dito que a mesma poderia destruir montanhas. Os trovões eram atribuídos a Thor arremessando ou golpeando os Jötnar pelos céus;

(11) Era dito que seu capacete (ou Elmo) lhe permitia caminhar invisível entre Deuses e mortais;

(12) Era dito que seus Raios foram forjados pelos Ciclopes;

(13) Dados de presente pelo seu Pai, Zeus;

(14) Símbolo de poder do Deus dos Mares e uma das armas roubadas de seu Pai, Cronos, junto com seus irmãos (Zeus e Hades) que também possuía o domínio das tempestades, maremotos e terremotos. Um de seus títulos era “sacudidor da terra”;

(15) ou seja, no conhecimento/sabedoria popular brasileira – usando a ideia do termo em inglês original de “Folk Lore”;

(16) Um amuleto bem popular no Brasil que consiste normalmente em um pingente com de uma mão fechada, normalmente feita de madeira, para proteção;

(17) Mundialmente conhecido por atrair “boa sorte” aos seus portadores.
Nota do Autor: costumo brincar que o pé-de-coelho traz muita sorte – menos para o coelho.

(18) Normalmente pendurado na parede ou arremessado por cima dos ombros para traz para atrair boa sorte e se proteger;

(19) A ideia é que o espelho “reflita” tudo o que é ruim e que vem “de fora” para sua casa, assim como fazer com que a primeira intenção ruim de algum visitante indesejado seja arremessado nele mesmo quando se deparar com sua própria visão no espelho;

(20) Ainda é comum em muitas regiões encontrar a prática de plantar pimenteiras na entrada de casa ou outras plantas como Espada-de-São-Jorge, com o intuito de proteger a casa de inveja e mau olhado;

(21) Uma prática muito comum para várias pessoas em algumas regiões, seja para se defender de mau olhado, inveja e agouro, quanto para atrair dinheiro e boa sorte. Essas práticas se tornam mais comuns em festividades como no Ano Novo comum;

(22) As Carrancas são esculturas de madeira em forma animal e humana com o propósito de afugentar maus espíritos e em alguns casos históricos de atrair peixes para embarcações e impedir que a embarcação afundasse;

(23) A contradição se faz evidente pelo fato de temer algo que você mesmo deseja encontrar ao ponto de preparar várias defesas contra o mesmo. A visão pessoal do autor está em mais proximidade com alguns seres como iguais do que uma divisão tão incisiva e taxativa ao ponto de necessitar de proteções e ameaças;

(24) Uma Pedra Furada de forma natural, podendo ser chamada de Pedra da bruxa;

(25) Citação de Adimiron Ben Theli.

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5 Respostas para “Conceitos sobre Instrumentos Mágicos e suas reais necessidades

  1. Falta de suas postagens, Sorath. Vi que a página no Facebook deixou de existir… Espero que seus ensinamentos voltem. Caso tenha tempo, apreciaria contato…
    Parabéns pelo seu trabalho.

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    • Olá Messorem,

      Agradeço pelo elogio.

      A página no facebook deixou de existir mesmo. Pretendo voltar com as postagens aqui no blog, abrindo espaço para postagens em inglês também.
      Ainda não decidi se o facebook será usado, mas por enquanto acredito que não.

      Preciso tirar um tempo para o layout, banners, links (muitos quebrados e muitos faltando), e quem sabe uma reformulada.

      Acredito que este ano devo fazer as mudanças.

      Mas estou aqui vendo os comentários e visualizações.

      Abraços,
      Sorath
      (O qual agora será Leonard Dewar).

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