O Caminho Partido e a Era da informação

O Caminho Partido e a Era da informação

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Aqueles que não fazem nada estão sempre dispostos a criticar os que fazem algo.
-Oscar Wilde

Não é segredo ou novidade que o mundo possui um crescimento exponencial quando se trata de tecnologia e de conhecimentos que trazem conforto e praticidade. Na última década temos acompanhado uma febre no que diz respeito não somente a internet, mas ao acesso e a facilidade através de aparelhos móveis diversos, bem como ao acesso a informação a todas as classes e grupos. O compartilhamento da informação chega a ser feita em tempo real a qualquer acontecimento diário, resumido a um simples botão ou comando.

Teoricamente o acesso à informação deveria abrir a mente das pessoas e dificultar a manipulação das mesmas através das grandes mídias ou das opiniões e preconceitos arcaicos. A idéia é que quanto mais as pessoas se comunicassem através da escrita, mais as mesmas exercitariam o vocabulário e cada vez melhor seria tanto seus conhecimentos quanto suas idéias: tais suposições simplesmente caíram por terra da pior forma possível.

O acesso em si, tanto da informação quanto da comunicação não somente está sendo falho no que diz respeito a propagar novas idéias e abrir as mentes das pessoas, como também trouxe inúmeras mazelas e problemas de forma compartilhada, bem como aumentar o alcance da inutilidade das pessoas mundanas: muito mais do que propagar boas e novas idéias, pois embora por um lado o acesso a informações mais valiosas tenha sido facilitada, o volume de mazelas espalhadas e de péssimos hábitos e manutenção da inutilidade das ovelhas tem sido esmagadoramente maior.

O problema não está, de forma alguma, na tecnologia ou nas inovações, pois as mesmas, além de serem úteis, possibilitarem e ilustrarem o desenvolvimento das criações humanas (incluindo avanços tanto com o intuito de curar quanto de matar), tais avanços se tornam naturais e dependem única e exclusivamente de pessoas para aplicarem o seus usos.

O Problema real são as pessoas.

É como aquela velha frase ilusória de que “armas matam pessoas”, logo, “armas devem ser proibidas”; quando na verdade o correto seria que “pessoas matam pessoas”, pois a arma é uma ferramenta no processo. Seria o mesmo que dizer “carros matam pessoas”, “açúcar é a causa da diabetes”, logo, “deveríamos proibir carros e alimentos com açúcares”: não faz sentido algum culpar o veículo ou ferramenta pela atitude humana, pois quem quer “matar” não precisa de uma arma propriamente, usando faca de cozinha, pedra, pedaços de madeira ou metal e até mesmo as mãos nuas; para ficar diabético, basta exagerar em açúcares ou até mesmo envelhecer sem uma alimentação saudável: há ainda casos em que se desenvolve a diabetes mesmo com boa alimentação, advindo de outro problema de saúde em qualquer idade.

Nossa sociedade possui o hábito, herdado dos cristãos, de colocar a própria responsabilidade de seus atos falhos em elementos externos, sejam pessoas, poderes sobrenaturais ou ainda na mídia, na sociedade, no outro. A verdade é que tais pessoas são apenas escravas e tentam sempre se justificarem como “certas”, mesmo quando agem de forma prejudicial para si ou para outros.

Os valores dessas pessoas são distorcidos e as mesmas agem como meras ovelhas guiadas cegamente pelos seus pastores. Aqui é importante deixar claro que não se trata apenas dos católicos e dos protestantes, sendo esses últimos os piores exemplos de nossa era; mas sim, de todas as pessoas que seguem padrões sociais de beleza, de moral, do que é importante e do que se deve pensar sobre algum assunto. É como a cena comum e vergonhosa, por exemplo, de pessoas que mexem com outras na rua por causa de sua beleza ou da suposta beleza imposta pela industria, como mulheres e homens de corpos completamente artificiais, no intuito de serem “perfeitos”. Porém, tais assuntos vão desde padrões de beleza e moral, até o âmago de questões muito mais complexas que dizem respeito aos valores individuais e as formas de enxergar e de agir na própria vida, bem como se meter na vida alheia.

Para aquele que trilha o Caminho não é difícil se ver isolado, mesmo que possua várias pessoas ao seu redor, como por exemplo, no trabalho ou local em que possa frequentar. Esse isolamento não é simplesmente físico, mas mental e espiritual. Tal solidão se da ao fato do Andarilho ter convicções diferentes das demais pessoas, incluindo valores pessoais mais sólidos e uma consciência mais desenvolvida em relação ao mundo e a vida em si: as pessoas mundanas são como ovelhas, que não só obedecem aos costumes ditados por outros, como elas necessitam de alguém para seguir e lhes dizer o que é certo e errado, o que devem acreditar ou fazer, seja uma igreja, seja um canal de televisão, seja uma celebridade ou até mesmo seguir as opiniões hipócritas da maioria.

Infelizmente, todo o tipo de mazela citada neste ensaio, jaz entre aqueles que se dizem Andarilhos ou praticantes tanto das Artes inomináveis quanto do Caminho da Mão Esquerda: não faz diferença se uma ovelha ou pessoa mundana diz seguir o deus da igreja ou a alguma divindade Luciferiana; não faz diferença se diz ser cristão ou satanista, seja Tradicional ou Moderno: dizer ou aparecer como tal não o torna realmente alguma coisa, pois a verdadeira essência começa na forma de enxergar o mundo e, principalmente, na forma de agir.

O que mais se vê são pessoas exatamente iguais a qualquer mundano do nosso dia-a-dia alegando fazer parte de algum Caminho obscuro, usando como desculpa o Caminho em si para justificar sua própria falta de caráter, demonstrando o pouco ou quase nenhum conhecimento real sobre o assunto em si – muito menos atitudes ou demonstrações de sabedoria verdadeira.

A modernidade nos presenteia com cada vez mais praticidades diárias, porém, ela vem acompanhada por novas necessidades, como se criássemos hábitos dos quais nos tornamos dependentes. Se pararmos para analisar, todas essas praticidades são bem vindas, desde que haja equilíbrio com seus usos e uma real necessidade das mesmas, porém, o que realmente acontece é a dependência de tais ferramentas e nichos, com o abandono de práticas mais antigas e extremamente essenciais. Mas a pergunta seria “essencial para quem?” A resposta é simplesmente “para aqueles que possuem olhos para ver” a realidade de uma forma mais abrangente, com os horizontes expandidos.

O Autor deste pequeno texto, por exemplo, não assiste televisão. Isso não ocorre pelo fato de negar ou de me rebelar contra alguma coisa, mas pela falta de interesse e pela compreensão de que as informações das emissoras de nosso país não trazem nada de bom. Nas raras vezes em que alguém liga a televisão e estou presente no ambiente, acaba que eu me sinto agredido intelectualmente (o que é um eufemismo, pois o correto seria dizer que me sinto retardado… ou tratado como um), pelo volume de propagandas despejados e comerciais manipuladores e de extremo mau gosto. A impressão é que os programas não possuem nenhuma utilidade para quem assiste e parecem ser feitos para pessoas menos providas de inteligência (outro eufemismo) e, na realidade, o objetivo é exatamente esse. Sem assistir a televisão eu acabo ganhando mais tempo e me vejo quase que completamente desligado das fofocas e comentários alheios e em muitos casos me sinto num mundo completamente diferente dos outros, devido a minha total alienação das notícias fabricadas para as massas.

Não obstante, a televisão não é o único mal e nem mesmo a causa dos problemas, mas evitá-la é sempre de bom grado e acaba que a mesma nem mesmo é lembrada, nem mesmo de sua existência, pois no dia a dia não faz a mínima falta.

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As necessidades criadas pelas pessoas e para as pessoas não passam de hábitos ou muletas e, para se andar o Caminho nenhuma muleta deve permanecer como apoio, pois as mesmas irão se quebrar e jogar o Andarilho ao chão. Caso o Andarilho não ache forças verdadeiras no lugar de suas muletas ilusórias, o mesmo estará destinado ao fracasso e a autolamentação. As forças devem ser verdadeiras e a vontade firme, assim como seu coração deve saber a hora em que será acelerado e a hora em que deverá se manter sereno.

Portanto, chegamos naquele ponto onde pensamos realmente qual seria nossa real necessidade, ou melhor, quais as necessidades individuais e em que se baseiam suas concepções. Aventurar-se pelos Caminhos Antigos é se aventurar por um Caminho muito mais simples numa visão mais verdadeira, mas muito mais complexo para quem está acostumado e intoxicado pelas inutilidades de cada dia, o que diz respeito a maioria das pessoas.  O Caminho Partido, seja bifurcado como a língua da serpente, tripartido como os Caminhos da Deusa Hecate ou cruzados (onde quatro e oito são iguais a nove) como a Rosa dos Ventos e as tão variadas encruzilhadas, representam o Caminho obscuro, o Caminho da Escolha e de suas respectivas consequências; é o caminho que destrói de forma cruel as ilusões do Andarilho, confrontando o mesmo com suas próprias escolhas, aspirações e concepções. Nada disso fica apenas na teoria ou nas ideias filosóficas, tendendo sempre a aparecer como situações práticas em que certas escolhas fazem toda a diferença no Caminho percorrido. Portanto, não há espaço no Caminho Partido para aqueles que desejam apenas “aparentar”, mas para aqueles que realmente ‘Andam o Caminho’ e que buscam a Sabedoria e o conhecimento.

Ao adentrar na matéria sobre as necessidades e no que realmente é preciso para cada indivíduo, é inevitável que a contestação de seus próprios hábitos e de sua própria forma de vida seja posta contra a parede: antes de sermos juízes do “outro”, devemos ser juízes de nós mesmos, mesmo sabendo que a autocrítica nunca é uma tarefa fácil, apenas para os ignorantes. Tentarmos ao máximo nos desfazermos dos venenos que consumimos (aqui são desde coisas que nos fazem mal diariamente e não aparentam ter soluções, quanto de certos sentimentos alimentados, os quais apenas nos trazem sofrimentos) e também deve-se tentar a se libertar de certas ideias preconcebidas. Nada fica mais fácil. Nada fica mais simples. Para aqueles que se aventuram como Andarilhos pelas Nove Direções, deve entender, desde o início, que esse tipo de Caminho não faz parte das facilidades diárias, mas muito pelo contrário: é exatamente entender como as coisas funcionam e sair desse mundo onde tudo é urgente, inútil e vazio, para uma viagem sem volta através de si mesmo e dos mistérios infindos desse mundo e além: cada Andarilho possui suas próprias concepções, devendo ter em mente que tudo é possível e que nada possui apenas uma visão.  É um Caminho voltado para aqueles que sempre possuem dúvidas e que sempre buscam por conhecimentos, mesmo aqueles que se consideram pouco prováveis, pois o sábio é aquele que sempre possui dúvidas. Apenas os ignorantes têm certeza de tudo.

Ao concluir este pequeno texto, prefiro deixar mais dúvidas e reflexões sobre as possibilidades individuais. Não vou afirmar as respostas corretas para as dúvidas em geral, mas sim, fomentar as perguntas certas e salientar suas respectivas reflexões e consequentemente seus entendimentos.

Quanto tempo de sua vida é dedicado a assuntos inúteis e o quanto as facilidades diárias, que teoricamente deveriam lhe servir, na verdade lhe dominam e o torna dependente das mesmas?

Você realmente está se dedicando àquilo que lhe é importante ou apenas trabalha de forma mecânica enquanto seus dias passam como se esperasse tendo como base uma esperança cínica de que “alguma coisa irá acontecer”, sem nada fazer para tal?

As ovelhas nada fazem a não ser seguir o seu pastor. O Lobo avança pelo desconhecido e adentra a escuridão de si mesmo e do mundo a sua volta. Qual desses dois estão destinados a grandes descobertas e qual desses dois possuirá mais experiência e entendimento do mundo a sua volta?

Quem acha que sabe tudo não aprende coisa alguma: aqueles que mantem a eterna atitude de aprender estão destinados à sabedoria.

Muitos esquecem que a contemplação ainda existe e que sem a mesma não é possível aprender realmente a essência de algo. Quem fica o dia inteiro ocupado com futilidades não possui tempo de contemplar ou de pensar sobre o próprio Caminho. Não adianta debater o conhecimento o tempo inteiro e ficar “online” a todo o momento, como se houvesse uma real necessidade de ver tudo o que acontece na internet: necessidades ilusórias cujo único resultado é manter seu usuário ocupado e longe de uma contemplação real.

Quantas pessoas compartilharam centenas de fotos alheias, por exemplo, da “blue moon” e quantas escreveram ou compartilharam dezenas de informações sobre, fizeram comentários e até discutiram sobre? E quantas realmente contemplaram a Lua Cheia em seu auge na vida real? Minha Mulher e eu (com nosso cachorro) sentamos num local aberto e vimos a Lua nascer vermelha no horizonte e ficamos lá, juntos, olhando ela ficar alaranjada e amarela, gigantesca e magnífica, com sua luz ficando cada vez mais forte enquanto subia. Isso em meio as nossas responsabilidades diárias. Aqui, a facilidade nos auxiliou para saber o momento mais próximo dela aparecer no horizonte para podermos vê-la levantar-se com seu esplendor. Não foram os comentários, fotos ou compartilhamentos na rede que nos deram alguma coisa. Talvez apenas a notícia sobre a mesma, todo o resto é filtrado.

Isso não ocorre apenas nesse tipo de exemplo, mas em todos os cantos e em todos os meios, pois quantos “ocultistas”, “bruxos” e “magistas” (e quaisquer outros títulos ou alcunhas preferirem) realmente fazem o que vivem pregando pela internet? Como teriam tempo para tal se sempre estão online, 24h por dia?

A internet é uma ferramenta, mas muitos vivem na mesma como se fosse um “lugar” ao invés de um “acesso”, esquecendo que as coisas acontecem apenas na vida real e que os únicos enganados são eles mesmos e as ovelhas que agem da mesma forma. Não importa se a máscara usada for de bruxo, satanista, ocultista e etc: não há como praticar tudo isso via internet e nem alcançar a sabedoria através da mesma.

Cada um possui o seu Caminho, seja para seguir os outros e ser comandado como qualquer ovelha ou para se levantar e aventurar-se no mundo real com toda a beleza e feiura que houver, tendo a dor e o prazer como consequência e a morte como sua companheira.

O Caminho é teu para ser trilhado e pessoa alguma ou Deus algum poderá tomar isso de ti. E se você busca a Sabedoria, prepare-se para ficar cada vez mais sozinho nesse mundo cheio de pessoas fúteis e vazias.

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”
-Oscar Wilde

 

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Notas:

As imagens desta postagem são do “Sinister Tarot”, atribuídos a Christos Beet, da O9A.

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