Um pouco sobre o medo e suas utilidades

Um pouco sobre o medo e suas utilidades

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“Sou sangue de teu sangue
Sou luz que se expande
Sou medo de teu medo
Senhor do teu tempo”
(1)

Para todos aqueles que iniciam uma jornada, principalmente ligada a algum tipo de magia, podemos dizer que além do fascínio e de todas as expectativas, o sentimento mais comum é o de medo.

        Diferente do que muitos dizem de forma equivocada, o medo não é um sentimento ruim, pois o mesmo é responsável por uma grande liberação de poder, seja para um lado ou para o outro. O medo existirá em todas as formas na vida não só do bruxo, mas de qualquer outra pessoa; a grande diferença é de que o bruxo conhece bem os seus medos e sabe usá-los tanto para benefício próprio ou para atingir os outros. Ao contrário do que muitos dizem, o verdadeiro corajoso não é aquele que não sente medo, mas sim, aquele que o sente e o controla: mesmo sabendo e sentindo medo de algo, o indivíduo em si não se deixa controlar e faz aquilo que é necessário, aconteça o que acontecer; isso é coragem. Trabalhar com os próprios medos não é uma tarefa simples, muito menos rápida. Requer-se tempo e dedicação diária, reflexões profundas e que passem por assuntos delicados até para – e principalmente – você mesmo. Existe tantos diferentes medos que não seria possível criar uma lista para a variedade dos mesmos, muito menos para os graus de vulnerabilidade e de resistência aos mesmos para cada indivíduo. A única coisa possível é o indivíduo trabalhar com os mesmos a fim de conhece-los mais profundamente, aprendendo mais sobre si no processo, e entender o que ocorre em suas reações e sentimentos.

        Embora muitos medos tratem de assuntos racionais que acabam por se transformarem em reações instintivas, muitos outros medos são colocados em nossa cabeça desde que nascemos; outros são frutos desconhecidos e que realmente podem continuar desconhecidos para o portador. A única coisa que pode ser afirmada é que o indivíduo, não importa a fonte de seu temor, pode enfrentar e aprender a reagir, bem como a não perder o controle ou outras formas de lidar com seus próprios medos.

        O problema nesta área é que a mesma é demasiadamente complexa para ser tratada tão levianamente, visto que traumas e outros problemas podem levar anos para serem resolvidas ou ao menos amenizadas. Porém, existem inúmeros medos que podem e devem ser trabalhados, bem como o poder que os mesmos liberam ou ajudam a liberar através de reações e sentimentos paralelos, seja de reação espontânea e desencadeada ou induzida com o propósito de mudar a vibração energética para se atingir um objetivo ou para ser capaz de acessar outras energias e trabalhar com as diferenças pessoais das mesmas.

        O fato, é que muitos começam a praticar magia querendo dar um passo mais largo do que as pernas, querendo chamar entidades poderosas ou sombrias, sem saber exatamente como ou na maioria das vezes com um medo ou até mesmo um terror que é difícil ser controlado enquanto seu dito “ritual” é realizado.

        O fato, é que as coisas deve começar devagar, afinal, como querer entrar em contato, por exemplo, com um Demônio, se o iniciante correria o risco de surtar caso tivesse a visão inesperada de um espírito durante o dia ou à noite? Às vezes, ouvir uma voz ou um sussurro, um rosnado ou sensação de que “alguma coisa macabra” se encontra a sua volta, uma mão lhe encostando num aposento escuro em meio a uma prática ou mesmo ver uma sombra escalando a parede de seu quarto como uma aranha com cabeça humana e uma longa língua de serpente, possa fazer um praticante perder o controle sem nem mesmo haver influência da entidade em si, apenas pela mera visão ou qualquer outro sentido básico que seja contemplado para fazer mais real a presença daquele ser. As vezes, mesmo sem ser através dos cinco sentidos básicos, por pura intuição ou instinto, aquele que não está acostumado com alguns poderes, pode se sentir ameaçado ou encurralado, como se a pessoa em si fosse uma presa sob ameaça de um predador, fazendo-a sentir um terror e um medo sem explicação lógica ou racional, podendo fazer com que muitos desistam desse tipo de caminho, sob a desculpa de que esse caminho é “algo ruim”. Chegar a esse ponto acreditando em “bem e mal” ou na ignorância de que um “bom caminho” deva ter frutos doces ao seu decorrer e uma estrada convidativa, reta, sem obstáculos e com flores adornando-a não corresponde a realidade dos caminhos que levam a libertação das ilusões mundanas, muito menos daqueles que levam a sabedoria e ao poder.

        É sábio e útil reconhecer o medo nas coisas simples como pequenos erros ou situações diárias que tragam alguma ansiedade, como errar um caminho por distração ou esquecer algum horário e perceber que está atrasado para algum compromisso. Essas situações corriqueiras nos mostram como o medo é algo simples, que desencadeia sentimentos e reações em nossas mentes e corpo; da mesma forma, podemos citar o medo em coisas mais complexas e duradouras, como estar apaixonado ou amando intensamente, o que nesse caso faz com que todas as pessoas sintam uma euforia junto com ansiedade, medo com felicidade, receio, insegurança, intensidade, sem ter certeza do que virá, pois tudo pode acontecer: o mundo aparece como um mar de possibilidades, nunca sendo algo simples de citar ou lidar; tanto o é que cada pessoa age de forma diferente em casos tão intensos e complexos, desde aqueles que não se deixam levar e usam esse “frio na barriga” como alavanca para superar o passado, mudar o presente e planejar o futuro, tanto aqueles que não conseguem lidar, chegando a cometer atos de violência contra si ou contra aqueles que amam. Muitos fogem, outros são dependentes: de qualquer forma, o medo está presente juntamente com inúmeros outros sentimentos intensos e poderosos.

        O pior medo que existe é o da antecipação, que consiste no indivíduo sentindo um medo constante por algo que ainda não aconteceu, usando frutos da própria imaginação e sentindo-os como se fossem fatos; esse tipo de medo transforma as situações boas em ruins de uma hora para outra, visto que não existe motivos a se temer e o indivíduo se deixa levar por medos imaginários, fazendo a situação em si piorar gradativamente ao longo do tempo, fazendo com que esse sentimento longo acabe sendo pior do que o fato em si, caso ocorra e quando ocorra.

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        O problema dos medos é a influência que permitimos que tenham no nosso dia-a-dia, desde nos trazerem sofrimentos reais com bases imaginárias quanto nos influenciar a tomar alguma atitude ou ainda não tomar atitude alguma com base nesse sentimento. Deixar de fazer algo baseando-se no medo não traz nenhum fruto a sua boca, apenas a visão desse fruto apodrecendo em frente aos seus olhos, sem que você seja capaz de prova-lo, deixando-o apenas com aquele sentimento de como poderia ser aquele gosto ou se você realmente teria aproveitado o seu sabor. Nesse caso, a escolha feita seria a opção de ficar apenas com o medo presente, perdendo qualquer chance ou oportunidade que aparecesse a sua frente.

Como podemos ver, o medo está presente em diferentes níveis em nossas vidas e nos traz influências em variados aspectos e intensidade. O que diferencia uma pessoa mundana do sábio é que aquele que percorre o caminho da sabedoria entende que suas ações não devem ser baseadas em medo, mas o mesmo deve ser entendido e não apenas ignorado levianamente.  O Sábio entende seus medos e não age como seu escravo, mas como seu senhor: é uma ferramenta e a mesma possui suas funcionalidades naturais, daquelas que todos os animais deste mundo compartilham, seja para autopreservação ou para a preservação dos outros membros de seu grupo ou família. O problema dos humanos é que como possuímos um cérebro extremamente condicionável, acabamos por receber, desde que nascemos, uma carga de adestramento com base no medo, seja na criação dos pais, da religião ou da sociedade, onde todos esses passam seus medos adiante, como verdades a serem temidas, o que na realidade, não faz sentido algum.

Aquele que percorre o Caminho da Mão Esquerda na busca da sabedoria, entende que o medo diminui sua intensidade gradativamente enquanto cada passo é dado nesta via. Conforme suas práticas evoluem, suas percepções expandem-se e sua sabedoria ascende; o praticante naturalmente entende que não deve temer o que a maioria teme e que seus medos podem ser compreendidos e até mesmo sentidos de forma completamente diferente dos demais: cada vez mais não haverá mais controle dos medos sobre o praticante e, quando sentidos pelo Andarilho, o mesmo não será influenciado em seus atos e suas decisões, pois entenderá todo o universo em volta de seus sentimentos e pensamentos, podendo inclusive escolher não ser afetado de forma alguma em inúmeras situações.

Não existe uma fórmula específica para que seja dado algum passo extremamente longo, mas apenas ideias para reflexões e práticas que possam ser observadas e testes que devem ser superados. Apenas se expondo a certos medos é que se pode entender a coragem, pois sem o medo a coragem não existe.

Quanto maior sua compreensão de algo, menos o medo poderá atingi-lo. Quanto mais seu conhecimento em torno de como as coisas funcionam, menos medo irá sentir, pois entenderá que muitas coisas não devem ser temidas e, as que devem, poderão ser enfrentadas mesmo assim. A ignorância é aliada ao medo. Os ignorantes temem tudo aquilo que não entendem, ou seja, temem a tudo. É neste princípio básico que reside o poder da religião dominante de nossa era: medo. E para se ter medo é necessário que se mantenha os ignorantes onde estão: achando que são demasiadamente pequenos e que não devem conhecer nada, nem a si mesmos, pois o questionamento e a busca os levaria para fora das amarras das instituições religiosas e os distanciaria dos valores sociais, levando-os a uma caminhada em busca do conhecimento além. Portanto, o caminho da sabedoria vai de encontro direto ao medo e, caso não esteja preparado para mudar sua visão de mundo nesse tipo de caminho, então esta expressão da Arte sem nome não lhe possui serventia, assim como nada que realmente possa lhe trazer a verdade que envenena: aos ignorantes apenas o doce licor da mentira, mesmo que o veneno liberte e o licor apenas lhe inebrie os sentidos.

Que tu sejas capaz de conhecer a escuridão de si mesmo.
(2)

Eu sou o silêncio – o medo em sua alma
Eu sou a mentira – a perda de sua dignidade
Eu sou o desfalecimento – a ira do seu coração
Eu sou a Luz – o que um dia você se tornará
(3)

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Notas:

(1) Trecho da música “Em nome do medo” da banda portuguesa “Moonspell”;

(2) Texto de Adimiron Ben Theli, retirado do Grimório “O Caminho das Nove Direções – Livro I – A Primeira Chama”;

(3) Trecho da música “Lichtgestalt” (Criatura de Luz) da banda alemã “Lacrimosa”.

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7 Respostas para “Um pouco sobre o medo e suas utilidades

  1. ”A realidade é absurda,
    As possibilidades não são nulas,
    O tédio é a solidão sem propósito,
    A morte uma vez conversou comigo,
    Lembro de ter tido muito medo dela,
    Desde então vivo para impor razão as coisas,
    Já que não encontro mais nada em si mesmo”.

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