A Arte da Bruxaria

A Arte da Bruxaria

A Arte da Bruxaria 1

“Uma luz negra, As almas perdidas estão suplicando
Agarrando-se ao último vislumbre de esperança”
(1)

Muitos são os sinais que levam ao Caminho. Muitos são os elementos identificados naqueles que praticam a Arte sem nome, mesmo que cada praticante seja completamente diferente, ainda assim há alguma similaridade em algum ponto de suas práticas.

Embora as diferenças entre praticantes da Arte Sábia do mundo inteiro sejam inúmeras em seus aspectos, sempre são achadas similaridades, mesmo que apenas conceitual.

É imperativo deixar claro neste Grimório da Arte sem nome, que quando falamos de ‘Bruxaria’, estamos falando da verdadeira Arte, a Inominável, dos mistérios que não dependem exclusivamente de algum Deus ou de algum grupo ou religião, principalmente grupos modernos e infantis e de pessoas que se apropriam de tais alcunhas como se fossem ‘títulos’, como se tal palavra resumisse um estereótipo de suas fantasias diárias ou contasse sobre algum conjunto de crenças em específico, que os mesmos insistem em achar que pode ser comparada ou ainda servir de exemplo para outras denominações. Não, quando falamos de bruxaria, da Arte dos Sábios, da Arte inominável, estamos falando de práticas realmente antigas e ao mesmo tempo contemporâneas. Ao paradoxo que isso possa significar, primeiramente é não confundir com o que vemos nos dias de hoje como “modernos” e “reconstrucionistas”. Não, essas pessoas apenas adaptam ao próprio conforto uma jornada que em primeiro lugar depende de que você saia de sua própria “zona de conforto” e se exponha ao perigo da real jornada.

A Bruxaria de que estamos falando é aquela que não depende de estudos e que ao mesmo tempo também faz parte da leitura. A Bruxaria é principalmente prática, ao mesmo tempo em que é entendimento e, principalmente, vivência (e isso acontece em inúmeros níveis em inúmeras situações).
Quando falamos na Arte dos Sábios, não falamos apenas nalgum tipo de ritualística em si, pois palavras por si só ou agitar uma faca qualquer no ar e achar que alguém virá ao seu encontro, são tão vazias quanto a compreensão do ignorante, tanto em sua mente quanto em seu instinto. Não. Tampouco fazemos alguma referência a algum ideal moderno de que há regras ou preceitos fixos a serem seguidos, como se houvesse alguma Divindade aos modos de um jeová de saias ou alguma lei punitiva ou compensadora operando para que tudo seja ‘justo’: Não, Deixemos isso para as ovelhas das igrejas que colocam suas vidas e escolhas nas mãos de seu deus e aceitam a palavra de outro homem como verdade absoluta. Bruxas não seguem ‘algo em comum’, não praticam ‘coisas em comuns’, não acreditam em algo em comum, não rezam para Deuses em comum, não aceitam as mesmas regras e nem operam de forma idêntica. Estamos falando da sabedoria da terra, dos ensinamentos dos segredos de nosso mundo e de outros reinos a partir de experiências e vivências, não de algum “livro sagrado” ou grupo moderno, nem tampouco estamos nos referindo a alguma religião em específico, tentando limitar e classificar a Arte Antiga como uma mera religião. Estamos falando das experiências que apenas o praticante em si pode ter e que nunca será igual ao do outro.

Quando usamos alguma alcunha, a mesma é meramente ilustrativa. A parteira que usa de ensinamentos antigos, poderia ser considerada uma praticante de tal Arte; A Benzedeira que cura e que ao mesmo tempo vai a uma missa e se diz cristã, também poderia ser uma bruxa. Não há regras e nem delimitações para usar alguma alcunha ou nome. Bruxo, mago, feiticeiro, Völvas(2), benzedeiras, necromantes e tantas outras alcunhas somente servem para ilustrar e em alguns casos especificar algumas habilidades ou meio cultural da pessoa em si.

O bruxo é aquela que vive o seu tempo, de acordo com seus próprios valores, mas nunca renegando as práticas antigas. Ele sabe que seu tempo são todos e que suas ferramentas são variadas. Não importa exatamente o que ele fará: se irá roubar uma hóstia de uma missa para feitiços, se irá chamar por Deuses Antigos ou realizar trabalhos com Anjos ou Demônios; ele não se importa com conceitos modernos de “judaico-cristão” ou de se delimitar em algum limite ou linha demarcada por outros. Não! O Bruxo é aquele que não se atém a limites! Ele é transgressor por natureza e qualquer limitação é ultrapassada e dilacerada com violência. Ele pode chamar o Deus Pan para perder o controle durante um ritual noturno; pode conjurar Demônios para trabalhos variados; pode chamar pelos Anjos para lhe trazer bênçãos; utilizar trabalhos de iluminação com Melek Taus(3) ou alguma faceta de Lúcifer; trabalhar com o espírito dos mortos e/ou aprender feitiços e travar contatos com espíritos de sua terra –  seja daqueles que já foram humanos ou dos que nunca foram; realizar um sacrifício de sangue para Hekate ou um combate ritual para agradar a Marte ou quem sabe a Odin; inclusive se familiarizar com Titãs(4), Jötnar(5) e outros poderes considerados caóticos e indomáveis, como algumas bestas antigas ou Deuses primordiais como Tiamat(6) e Kingu(7): Não há regras ou limitações. Aqueles que se deixam limitar pelas regras dos outros, são os fracos. E fraco é a última coisa que um Filho do Fogo deverá ser. O bruxo não precisa “resgatar” alguma coisa, pois ele mesmo representa a Arte em si. Não precisa se “religar” a alguma fonte, pois ele nunca esteve separado da mesma, seja qual for. Ele vive seu tempo e usa aquilo que tem em mãos, sem se preocupar no que o raciocínio moderno pode achar. Não: a Bruxaria é um legado que pertence a humanidade e não a algum grupo, religião ou quem quer que seja. Ela é muito mais antiga do que os grupos modernos e possui poderes e mistérios infinitos para se preocupar com meras separações ou definições de pessoas que não sabem viver o Poder em si.

A Arte da Bruxaria 2
(Arte por HolyLand TL, clique no nome para ir a página)

A Bruxaria também poderia ser a Arte da mudança, da transformação, onde vive a Verdadeira Magia. Alguns chamam de Alquimia tal Arte, o que também é uma alcunha muito bem vinda.

Bruxaria é prática e vivência. É conviver e viver entre certos poderes, inclusive os próprios. Não é um Caminho para todos, nem é aberto e nem tampouco acessível para qualquer um. Grupos de Bruxaria escolhem a dedo seus integrantes, não dando chance para aqueles que os membros não consideram que seja uma “boa aquisição”.

Não faz a menor diferença se alguém ‘se diz’ ou não ‘bruxo’, ‘mago’, ‘feiticeiro’ ou qualquer outra alcunha. Não. O que importa é o poder que a pessoa tem a oferecer e a sabedoria alcançada a partir disso.

Não existe “bruxo de coração”, isso denomina alguém que não pratica e nem está inserido nos mistérios. Esse tipo de ‘inclusão’ ocorre pela deficiência de alguém entender que não possui os requisitos para tal Arte e também da deficiência e covardia das pessoas a sua volta de dizer a verdade ou reconhece-las em si mesmas. Isso é resultado do pensamento moderno de que “todos somos iguais” e “todo mundo possui a mesma capacidade”, o que é uma das maiores mentiras e ilusões criadas e que predomina na mentalidade dos mundanos do nosso tempo. As mentiras são mais confortáveis do que as verdades. As Verdades incomodam a grande maioria. Enquanto a mentira é doce e engana os sentidos, a Verdade é amarga. A Verdade envenena e muda permanentemente aqueles que bebem de seus lábios ou escutam seus sussurros, como uma serpente ao pé do ouvido.

Bruxaria engloba todas as Artes inomináveis, sejam de sortilégios ou transformações; seja de viagens a outros reinos ou sabedorias tão antigas quanto a voz das pedras ou a Arte de voar ao Sabbath das bruxas. Consiste na mudança ao mesmo tempo em que ocorre o natural.

Bruxaria é o ilimitado. É a mente e o espírito sem amarras. É a Arte de entender a vida e a morte. De entender as correntes de Poder, os Deuses, os Anjos, os Demônios, os Mortos e todos os seres que existem ou não em nosso mundo e além. É saber que nenhuma amarra pode ou deve lhe tocar e que tudo que há nesse mundo é teu para ser usado, ao mesmo tempo em que nada lhe pertence e que você faz parte de tudo: aprenda a usar tais poderes ao teu favor. Que qualquer regra que não desejas seguir, é tua para ser quebrada. Que você deve amar a si mesmo e a tudo que desejar, assim como ter a liberdade de odiar a tudo o mais que lhe apeteça. É saber que não possui culpa e que apenas você mesmo é quem tem o direito de se por algum limite, seja pela sua crença pessoal ou por teu próprio desejo. É não ser obediente a Deus algum, a Deuses alguns, a espíritos, entidades e muito menos a pessoas. Tua liberdade é tua bússola. É você quem decide o que desejas e teus próprios parâmetros. A Arte não possui dono, apenas variados patronos que podem e devem ser acessados caso seja teu desejo. A vida é tua para viver ou morrer e o que outros chamam de “pecado” é apenas uma forma de tentar limitar seu caminho, julgando suas ações de acordo com os próprios medos e incapacidades. É saber que a responsabilidade de tuas ações são somente tuas, tanto teus acertos quanto os teus erros.

Palavras são insuficientes e até a poesia em si é falha para descrever o que é a Bruxaria ou a Arte dos Sábios. Portanto, deixo aqui somente essas breves impressões, meramente superficiais comparadas ao ‘todo’ e, finalizo com uma frase que resume em si o que é a Arte dos Sábios:

A Arte dos Sábios simplesmente é, mesmo sem definição.

Bênçãos e Maldições.
(8)

“Bem, eu sei que você adoraria ir para o paraíso
Mas você sabe que você tem medo demais de morrer
E eu sei que você adoraria saber as respostas,
Mas para você a verdade é apenas outra mentira”
(9)

 

A Arte da Bruxaria 3

Notas:

(1) Trecho da música “The Wretched” (Os Desgraçados), da banda “Tristania”;

(2) Para os nórdicos, Völvas eram mulheres capazes de predizer o futuro;

(3) Melek Taus é o nome do Anjo-pavão cultuado pelos Yezidis;

(4) Titãs são uma classe de Deuses (Deuses Titânicos) que antecedem os Deuses gregos e são descritos muitas vezes como inimigos dos mesmos. Muitos além de possuir formas monstruosas e compostas, ainda havia aqueles sem forma humana definida;

(5) Jötnar (plural de Jötun) são os Gigantes dos mitos Nórdicos. Assim como os Titãs gregos, foram os primeiros seres a existir; embora para os Deuses Nórdicos há várias interações com os mesmos e, em alguns casos, bastante ambíguas;

(6) Tiamat foi o primeiro ser na existência dos antigos sumérios, sendo descrita como a geradora dos Deuses. Foi morta pelos  seus filhos e de seu corpo foi criado a terra e o céu;

(7) Kingu foi filho e marido de Tiamat, criado pela mesma para liderar seu exército contra os Deuses. Kingu foi capturado e morto; seu sangue fora usado para criar os humanos, segundo as descrições dos mitos Sumérios;

(8) Texto retirado do livro “O Caminho das Nove Direções – Livro I – A Primeira Chama”, por Adimiron Ben Theli;

(9) Trecho da música “Breaking All the Rules” (Quebrando todas as regras) de Ozzy Osbourne.

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6 Respostas para “A Arte da Bruxaria

  1. Fabuloso texto. Incrível como explica tudo que sempre tive comigo. A melhor definição de bruxaria que já vi. Continue sempre, porque está perfeito.

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    • Agradeço pelas palavras!
      Mas devo acrescentar que além de meu próprio Caminho, tive influência de outros textos e autores durante os anos.
      É gratificante que haja identificação dos leitores com o que escrevo.
      Abs!
      Sorath111

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    • Olá Fernando!
      Agradeço pelo elogio!
      Eu estava escrevendo esse grimório ha um tempo e quando perdi meu HD, perdi tudo que havia escrito. O que restou foram algumas referências que consegui guardar de pesquisas e práticas e alguns textos que publiquei aqui no blog.
      Ainda penso em recomeçar a escrevê-lo para uma futura publicação, seja em inglês ou em português.
      Abs

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