A Arte de transmutar os sentimentos em Poder

A Arte de transmutar os sentimentos em Poder

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“Eu nado em ti
Em teus tenebrosos rios
Mergulho em tua mente
Busco seus monstros
Busco resistência
Afundo na lama
Danço nos salões da insanidade
Contudo, a loucura é a maior de tuas realizações
Sua vaidade”
(1)

Já havia pensado em escrever sobre tal assunto usando diferentes abordagens de acordo com a linha de pensamento mantida em cada momento; porém, refletindo sobre o tema e sobre experiências passadas, cheguei à conclusão de que não teria outra forma de abordar, no momento, do que de uma forma mais direta e pragmática, do que usando referências ou outros Artigos. Assim então é mais simples de escrever sobre o assunto proposto, para ser algo mais facilmente entendido.

De todos os sistemas de magia conhecidos e não conhecidos, nenhum trabalha de forma mecânica e igualitária. Os efeitos não dependem somente dos gestos e palavras, muito menos poderiam ser realizados usando-se apenas os elementos necessários ou que carreguem Poder de forma Real se não estivermos preparados e com capacidade para realizarmos algum ato de magia.

Muitos se preocupam em educar apenas a Mente ou o raciocínio. De fato, são elementos muito importantes, mas não são vitais para se realizar alguma mudança significativa a sua volta no que diz respeito a magia em si. Existem diversos outros elementos extremamente importantes para aqueles que trilham o Caminho tortuoso da Bruxaria, como as ‘Percepções Sensíveis’(2), autoconhecimento e, consequentemente, o ‘Domínio de si mesmo’(3).

O tema deste ensaio não é sobre treinamentos e práticas básicas sobre as percepções sensíveis e o acesso aos Reinos de Manifestações em níveis distintos; nem sobre como se realizar contatos espirituais e nenhuma outra ‘receita’ ou prática que foque sobre algum desses objetivos mastigados: há muitos locais para achar ou basear seus próprios rituais. Não, este Ensaio serve para alguma reflexão, dando uma chance ao leitor de explorar certos detalhes e noções que podem tanto expandir seus trabalhos como lhe ajudar a despertar (ou liberar) aquilo que ora adormece, ora explode e acaba por mudar todas as expectativas e visões tanto de mundo quanto do seu dia-a-dia, seja de forma prolongada ou ainda em breves e intensos momentos (o que pode fazer toda a diferença dependendo de seus atos): Aprender a Sentir.

Pode parecer algo básico, mas os níveis em que o tema pode (e deve) ser explorado, faz com que se revelem situações e sentimentos tão adversos, que com toda a certeza se assemelhará a uma escada Espiral direto para o Abismo de sua própria alma e, as vezes, como uma queda sem fim no Poço sem Fundo de Abadon(4).

O Autoconhecimento e seus perigos, bem como a revelação daquilo que você guarda tão enterrado dentro de si e tão escondido de sua própria consciência, são explorados em alguns Caminhos denominados LHP(5), ou Caminho da Mão Esquerda, como são conhecidos. Existem inúmeros Caminhos que possuem seus próprios métodos para acessar segredos perdidos e escondidos tanto pela sua linhagem quanto pelo seu próprio espírito e mente. O problema nessa parte é o fato de estarmos condicionados a sermos “bons” aos olhos dos outros e da sociedade, como se “bondade” fosse algo pré-determinado e supervalorizado, aos moldes dos cristãos e dos pseudo pagãos que agem como os mesmos. Ainda pior do que isso, a grande maioria tenta se convencer de que é uma ‘boa pessoa’, sendo que tal visão sempre é subjetiva, afinal, o que é uma boa pessoa? Pra quem? Por quê? Não há resposta definitiva, apenas conjecturas que se baseiam nas Religiões do Livro(6) e de seus valores distorcidos e manipuladores e, quando se avança um tempo no Caminho, tais ilusões se desfazem como ventos velozes que limpam as nuvens do céu para um glorioso dia azul, ao mesmo tempo em que revela que tais nuvens escuras na verdade são as suas próprias criações. Não há inimigos aqui, a não ser você mesmo, ou melhor, suas amarras, suas limitações e sua ignorância.

Embora tal assunto seja amplo, dando espaço para argumentações e debates mais profundos, manter-me-ei na linha de raciocínio do assunto proposto.

Quando escrevi “aprender a sentir”, não é da forma em que aprendemos de forma instintiva e social: diferente da maioria das pessoas, o bruxo, mago, feiticeiro, ocultista (ou qualquer alcunha que lhe agrade) possui um conhecimento maior sobre si próprio. O autoconhecimento é deveras importante e saber de uma forma mais real e profunda sobre os próprios sentimentos, garante não só mais estabilidade emocional, mas também uma maior resiliência, desde que o mesmo consiga passar por certas dificuldades mantendo algum domínio sobre si mesmo em algum nível: Aqueles que não andam por conta própria ou que são dependentes de outras pessoas, não podem tomar as próprias decisões, quem dirá trilhar um Caminho tão solitário e tão profundo e conflituoso quanto o da transformação, que mesmo acontecendo em níveis internos, causam mudanças externas notáveis, principalmente a sua volta e ás pessoas ao seu redor, como consequência e como parte das transformações.

Podemos observar que quanto mais “Antigo” ou “Sábio”, mais assertivo o praticante se torna; maior resiliência pode ser observada. Suas atitudes, pouco-a-pouco, são tomadas de forma mais clara, sem se render ao ‘calor do momento’ em situações em que uma breve ponderação poderia fazer toda a diferença. Que fique claro que quando digo “ponderação”, não digo em ser pacifista de forma alguma: ponderar seria apenas “pesar”, “avaliar”, “pensar com maturidade” e de forma alguma entra os pensamentos que a maioria possui de forma automática, como achar que ‘ponderar’ no ‘calor do momento’, seja o momento que for, seria não fazer alguma coisa ‘por não ser o certo’, pois assim entra em questão os valores cristãos novamente, ditando o que é ‘certo’ e ‘errado’. Não, aqui apenas me refiro ao que ‘você precisa fazer’ ao invés de ditar o que é ‘certo’.

Em situações diárias podemos nos aborrecer com facilidade e também ficar felizes com alguma coisa e isso acaba definindo sua qualidade de vida e visão de mundo. Quem nunca ouviu alguém dizer logo pela manhã “tal coisa já acabou com meu dia!”? Agora imagine que tal pessoa se diga um Bruxo ou similar. Onde está o domínio sobre si mesmo? Onde está esse tal Poder que qualquer um, seja o lixo que for, pode simplesmente ‘acabar com seu dia’? É claro que não faz sentido algum e essa pessoa tão frágil e influenciada por qualquer acontecimento externo, obviamente não possui controle algum, seja para ignorar essa ‘tal coisa’, seja passar por isso e enfrentar o dia, seja para achar ‘tal coisa’ pequena demais para lhe afetar ou ainda revidar, destruir e vencer, seja essa tal coisa um imprevisto, algum acontecimento, notícia ou pessoa desagradável. De todas as alternativas que poderiam ser tomadas, como alguém que segura basicamente as rédeas da própria vida, a pessoa escolhe ser quebrada como um graveto e espetada de perto sem reação alguma.

Por incrível que pareça, a maioria das pessoas, quando estão mal por algum motivo, sofrem em silêncio e tentam mascarar seu sofrimento. Em vários casos fazemos isso com os outros em certos ambientes, mas o problema em si começa quando se tenta mascarar o próprio sofrimento de si mesmo.

A primeira ideia de prática que posso aconselhar aqui é: sinta sua dor. Aprenda sobre a mesma. Não tente mascará-la para você mesmo. O aprendizado sobre seu verdadeiro EU, ou que Jung popularizou como “A Sombra”, é o primeiro passo e um ponto crucial não para eliminar seus atributos “ruins”, mas para enxergar que existem e que não são um problema, e sim, seus aliados. Conheça seus limites: analise seus pensamentos mais sombrios e não tema suas vontades, pois conhecendo e se familiarizando com sentimentos macabros e vontades passageiras é que você terá não somente o conhecimento, mas o controle dos mesmos e, quando menos esperar, estará em harmonização com esse suposto “lado de trevas”.

Quando sentir que está sob o efeito de alguma “onda” de sentimentos ruins, aprenda a se analisar e entender aquilo que está sentindo. Quando algo lhe desagradar, diga, mesmo que cause conflito em seus meios, pois ser submisso é ser um escravo e não Senhor de si mesmo.

Compreendendo tais estados, será possível produzir Artes mais inspiradas e entender mais sobre si mesmo e consequentemente mais sobre elementos externos. O ponto principal será como sua própria visão e sua própria resistência aumentará em tais estados emocionais e, com o tempo, do conhecimento e sabedoria, surgirá um certo controle, que não será o mesmo que abafar tais sentimentos de forma a corroê-lo durante os dias, mas sim, de poder transformá-los em algo que lhe seja útil.

Com o tempo, tal pessoa pode ser considerada gradativamente mais fria pelo controle de suas emoções, o que não é de forma alguma algo ruim, ainda mais que seria apenas a visão externa daqueles que não possuem e não entendem tal controle, achando que se alguém consegue ‘pensar antes de agir’, mesmo em situações em que a maioria não consiga lidar, então tal pessoa “sente menos”. O caso não é ser anestesiado para ‘sentir menos’, claro que não. E sim, ‘sentir mais’ para conseguir o entendimento e a compreensão plena do que se está sentindo. Sabendo analisar e entender a própria dor, não como algo horrível que se deva tentar fugir ou esconder, mas como parte de si mesmo e, principalmente, entender algo básico em toda a existência de nossas vidas, que consiste em:

“A Dor é inevitável, o sofrimento é opcional”.
(7)

Sinta as dores que você teme. Compreenda-as. Como se fossem coisas a serem observadas. Contempladas. E com o tempo, não terá mais medo das dores e muito menos será desestabilizado por algo que lhe é tão familiar. Consequentemente sentirá menos medo de situações diversas e será capaz de enxergar o mundo de uma forma diferente.

Quando sentir alguma felicidade, faça o mesmo e sinta tal felicidade com tudo o que seja possível: se concentre na mesma, entenda o seu eu quando tiver algo que lhe dê prazer e felicidade. Ser intenso não é ser ‘sem controle’ para si mesmo. Ser intenso é sentir tudo de forma verdadeira, com tudo o que você tem.

Aos poucos, a capacidade de transformar um sentimento em outro estará mais próxima, como por exemplo mudar seus próprios estados de consciência de acordo com a necessidade.

Seja para uma situação de conflito ou para outra em que deseja se sentir melhor. Seja para produzir ou escrever, criar ou reproduzir, ler ou sentir…as possibilidades são inúmeras.

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Uma boa ideia é o de se colocar sob influências corporais e tentar alterá-las fisicamente através da respiração, o que é uma ótima ferramenta. Um dos exemplos básicos é o de beber cafeína até ficar agitado e quando sentir que está num estado sob tal influência, tentar controlar a ansiedade através da respiração, limpando os pensamentos e atingindo um estado emocional tranquilo.

Também há outra que consiste em permanecer numa posição dolorosa, como a posição usada nas artes marciais japonesas como o Karatê, chamadas de “Seiza”(8), em que o Artista Marcial posiciona-se de joelhos e com o peito do pé direito encaixado na sola do esquerdo, sentado, mantendo a coluna encaixada no quadril, ereta, e o corpo relaxado: as pernas e os joelhos irão começar a doer e a dor aumentará consideravelmente. A reação mais comum é o de inclinar para frente ou a de tentar se apoiar nas próprias coxas. O ideal é conseguir meditar em tal estado por alguns minutos, controlando a respiração e acalmando o espírito, corpo e mente, conseguindo sentir a dor e entende-la, mas sem ser afetado pela mesma.

Ambas as ideias requerem prática e suas aplicações devem ser aplicadas primeiramente no seu dia a dia para só após de certa familiaridade com tais práticas, serem levadas aos rituais em si.

Ritualisticamente e magicamente, depois de entender como usar em seu dia-a-dia, nos rituais se torna uma ótima ferramenta para se colocar na vibração na preparação ritual. Como por exemplo, para realizar um ritual ligado a Morte ou assuntos mais macabros ou ctônicos, não adianta iniciar o contato com certos poderes de forma apaixonada e eufórica: um toque de melancolia, mesmo para a felicidade pode se fazer necessário, assim como uma mente contemplativa para tais mistérios sombrios. Da mesma forma, ao tratar de energias ligadas ao prazer, a fertilidade, sexo ou amor, não se deve iniciar um ritual sentindo-se melancólico ou infeliz. O mesmo se aplica quando se tratar de energias Marciais: deve entrar com o mesmo tipo de energia, o que pode e deve ser influenciado pelo próprio estado emocional.

Da mesma forma, saber se incitar ou se acalmar é a base para inúmeros processos, tanto mágicos quanto diários e podem ter um peso além do esperado se usados de uma maneira consciente.

Quando precisar “sentir” alguma euforia para realizar um rito, saberá como fazê-lo; Quando necessitar odiar e desejar a morte, saberá como trazer seu desejo sombrio das profundezas de seu ser; Quando precisar amar, saberá fazê-lo e senti-lo como nenhum outro; e entendendo seus próprios sentimentos, começará a entender os daqueles a sua volta.

Aprender a sentir não é viver a mercê dos acontecimentos e sentimentos diários como a maioria faz, mas poder escolher como reagir aos acasos e situações da própria vida e decidir como deseja se sentir.
Saber sentir é sentir tudo aquilo que se pode e que se deve, seja um prazer maior ou o mais doloroso sentimento em toda a sua intensidade. É compreender tais sentimentos em diferentes níveis e nunca tentar esquecer.
Não importa; tudo isso é teu e se almejar a sabedoria, deverá começar por si mesmo: muita coisa há de ser feita.
É hora de acordar…

Que esta Prata lhe dê um pequeno pedaço do meu Ouro e que a Alteridade seja feita Carne!

“Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”.
(9)

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Notas:

(1) Trecho da música “World of Glass”, da banda ‘Tristania’;

(2) Aqui me refiro ás percepções além dos sentidos físicos e básicos;

(3) “Senhor de si mesmo” é um termo comum na Bruxaria, uma vez que normalmente somos guiados de forma aleatória por Atos impensados e simples reações, alguém que é “Senhor de si mesmo” pode decidir tanto seus atos quanto reações, através de consciência e auto controle, podendo realizar suas escolhas de forma clara e arcar com suas consequências;

(4) ”O Destruidor”. Normalmente citado como “O Demônio do Poço sem Fundo”. Também como locais de destruição ou ruína, como o Abismo;

(5) “LHP” significa “Left Hand Path” (Caminho da Mão Esquerda);

(6) Cristianismo, Islamismo e Judaismo;

(7) Frase do escritor Tim Hansel em seu livro “You gotta keep dancin” em que o mesmo diz “Pain is inevitable, but misery is optional. We cannot avoid pain, but we can avoid joy”, que significa “Dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional. “Nós não podemos evitar a dor, mas podemos evitar a alegria”.

(8) “Sentar de forma apropriada”. Comum no Japão e nas Artes Tradicionais de sua cultura, como Karate, Aikido, Judo, Iaido, etc…

(9) Citação de Oscar Wilde do livro “The soul of man under socialism”.

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6 Respostas para “A Arte de transmutar os sentimentos em Poder

  1. Gostei muito do texto, na verdade é algo bem difícil mas que já venho colocando em prática há algum tempo com persistência até a total eficiência. Estou de acordo que todas sensações devem ser sentidas e nunca reprimidas como correntes que pregam não sentir ódio, raiva etc. Impossível você tem de senti-los e não sufocá-los e aprender a trabalhar com as emoções usando em benefício próprios sempre. Vou seguir o blog vejo que aqui tem conteúdo.

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    • Realmente, embora pareça simples, é uma Caminhada difícil e cada avanço em nossa compreensão e equilíbrio é resultado de bastante vivência e trabalho árduo.
      Agradeço pelas palavras e por seguir o blog!
      Sorath111

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  2. Muito bom esses conselhos e a maneira na qual você escreve. Porque dessa forma consegue ir além do convencional e vai polindo aquilo que mais tarde se tornará o conhecimento prático, no que diz respeito ao estudante em seu treinamento e introspecção. Um abraço.
    Hiago Tarigo

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    • Saudações Iago,

      Realmente é verdade. O que muitos esquecem é que antes de correr, deve-se primeiro saber andar, ou a queda será inevitável. Se quando andamos tão bem e sem pensar as quedas surgem, imagine atropelar o básico rs

      Agradeço pelo comentário,
      Abraços!
      Sorath111

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