Um pouco sobre Orfeu e Os Hinos Órficos

Orpheuse_before_Pluto_and_Persephone_by_François_Perrier
(Orfeu diante de Hades e Perséfone, por Francois Perrier)

“Caída em nosso mundo,
A serpente do Paraíso
Senhora da Sabedoria
Nas canções de Orfeu.”
(1)

Orfeu: Herói e Poeta

Os Hinos Órficos são um conjunto de poesias devocionais atribuídos ao grande Orfeu, tido nas histórias Helênicas(2) como o maior poeta e músico que existiu.

Era dito que quando tocava sua Lira(3), os pássaros interrompiam seu voo para escutar sua música; os animais selvagens perdiam o medo e se aproximavam e as árvores se inclinavam para ouvir sua música trazida pelos ventos.

Após perder a sua amada Eurídice(4) numa tragédia, Orfeu desceu até o submundo afim de encontrar sua esposa. Convenceu Caronte(5) a transportá-lo vivo pelo Estige(6) comovendo-o com sua Lira; acalmou e adormeceu Cérbero(7) com sua música e a cada monstro e guardião que encontrava pelo caminho, conseguia passar encantando-os com sua Lira.

Quando chegou ao Deus dos mortos, o poderoso Hades, o mesmo se enfureceu por ter em seu mundo um mortal. Então Orfeu tocou sua Lira e toda a agonia de sua música comoveu a todos no submundo, inclusive o Deus dos mortos, que chorou lágrimas de ferro. Comovida, sua esposa Perséfone pediu ao marido que concedesse o desejo de Orfeu, e Hades assim o fez, sob a condição de que Orfeu não olhasse para sua amada que viria atrás de si até que a luz do dia a tocasse novamente.

Orfeu tocou alegremente por todo o caminho de volta e quando estava quase chegando a saída do submundo, olhou para trás para assegurar se sua amada realmente estava atrás de si. Hades e Perséfone o seguiam, juntamente com sua amada, que foi puxada novamente para o submundo voltando ao aspecto de um fantasma. Orfeu perdeu sua amada para sempre.

Orfeu termina sua vida assassinado por Mênades(8), que não aguentavam mais serem rejeitadas pelo Herói, que nunca mais quis outra mulher e permanecia em um luto infindo. Elas o atacaram com dardos e pedras, mas nada o atingia, pois sua música o protegia. Elas então gritaram ferozmente e o som de seus gritos abafaram a música de Orfeu, que foi atingido por dardos e pedras. Elas despedaçaram o seu corpo e jogaram sua cabeça no Rio Ebro. As Musas se compadeceram, recolheram seus pedaços e o sepultaram no Monte Olimpo. Orfeu se reencontra com sua amada no mundo dos mortos e foi dito que os pássaros cantavam mais docemente onde fora enterrado do que em qualquer outro lugar.

Suas assassinas foram transformadas em Árvores e castigadas por anos pelos ventos que espalhavam a música de Orfeu e morreram lentamente, pelo tempo que vive um carvalho, até que seus troncos e galhos secaram e se espalharam pelo chão.
(9)

A Orfeu foram atribuídos tanto os Hinos Órficos quanto o Orfismo(10) e notavelmente foi um personagem muito importante no que diz respeito a Arte e a seus feitos. Seu nome é tão famoso que Orfeu é conhecido, inclusive, pelas pessoas que nada entendem de sua história, culto ou feitos e, ainda assim, são capazes de fazer ligação de seu nome com a música ou poesia(11).

Os Hinos Órficos

Os Hinos Órficos foram poesias de caráter devocional, atribuídos ao Herói grego Orfeu.

Existem inúmeras traduções do grego, sendo a mais famosa do grego para o inglês arcaico, traduzidos por Thomas Taylor, em 1792. Essas traduções foram e são usadas até hoje para fins ritualísticos, sendo utilizados em práticas que são tanto relacionadas a Astrologia Tradicional e aos sete Planetas regentes, quanto para o que seja relacionado aos Deuses Antigos sob máscaras greco-romanas, pois a tradução de Thomas Taylor usa as correspondências dos nomes romanos para as divindades.

É muito comum usar tais textos em rituais que envolvam bruxaria, uma vez que são poesias particularmente simples e poderosas, usadas por séculos para acessar certos poderes e ter alguma atenção de certas divindades, seja para homenagem, devoção ou apenas para algum trabalho que envolva seus poderes, oferecendo-lhes a poesia em si e o que mais fizer parte do ritual ou feitiço em si.

Os Hinos Órficos são compostos por um total de 87 Hinos, direcionados a Deuses e forças da natureza, como o Fogo, a Noite, as Estrelas entre outros.

Abaixo, apresento três Hinos Órficos traduzidos em português da obra de Thomas Taylor(12) que podem ser usados para qualquer fim, respeitando os poderes dos Deuses dos quais representam e seus domínios.

Para Vênus

Um Hino

(Hino LIV)

Bouguereau_venus(O Nascimento de Vênus, de Adolphe William Bouguereau (1879) )

Celestial, ilustre, Rainha do riso amoroso,
Nascida do mar, amante noturna,
de um semblante terrível;

Astuta, de quem a necessidade veio primeiro,
Produtora, Noturna, Dama toda onisciente:
É teu o mundo com harmonia para se unir,
Pois todas as coisas nascem de ti, ó Poder Divino.
Os Destinos triplos são governados pelo teu decreto,
E todos os rendimentos das produções são iguais a ti:
Quaisquer que sejam os céus, cercando a tudo contêm,
Terra produtora de frutos, e a principal tempestuosa,
Tua influência confessa e obedece ao Teu aceno,
Terrível assistente do Deus Brumal:
Deusa do casamento, encantadora para a visão
Mãe dos Amores, cujos banquetes deleitam;
Fonte de persuasão, secreta, Rainha favorecida,
Ilustre nascida, aparente e invisível:
Conjugal, Lupercal, e aos homens inclinada,
Prolífica, mais desejada, que dá vida, Amável:
Grande portadora do cetro dos Deuses, ele é Teu,
Os mortais em bandos necessários para unir-se;
E todas as tribos de selvagens monstros terríveis
Nas correntes mágicas para atar, através do louco desejo.
Venha, Nascida em Chipre, e para minha oração se incline,
Se exaltada nos céus você brilha,
Ou agradada no templo da Síria presides,
Ou acima das planícies egípcias Teu carro guias,
Coberto de ouro, e próximo de sua inundação sagrada,
Fértil e famosa para corrigir a tua morada abençoada;
Ou se regozijando-se nas margens azuis,
Perto de onde o mar com espumas e vagas onduladas rugem,
Os coros circulares dos mortais, Teu deleite,
Ou ninfas belas, com olhos cerúleos brilhantes,
Agradadas pelos bancos empoeirados e renomados de outrora,
Para conduzir rápido, dois carros unidos de ouro;
Ou se no Chipre com o afeto de Tua mãe,
Onde as mulheres casadas louvam-te a cada ano,
E virgens lindas a se unir ao coro,
Adônis puro para cantar a ti Divina;
Venha, toda atrativa à minha oração inclinada,
Por ti, eu chamo, com mente santa, reverente.

Hino Órfico para Pan

(Hino X)

Fumigação de vários odores

2 (20)

Eu chamo o forte Pan, a substância do todo,
Etéreo, marinho, terrestre, alma de tudo,
Fogo imortal; pois todo o mundo é teu,
E todos são partes de ti, ó poder divino.

Vinde, abençoado Pan, o qual se deleite em assombrar os campos,
Venha, saltando, ágil, errante, luz estrelada;
As Horas e as Estações, esperam teu alto comando,
E volte ao Teu trono e permaneça em graciosa ordem.
Pés de bode, chifrudo, Bacanal Pan,
Fanático Poder, pelo qual o mundo começou,
Cujas diferentes partes por ti inspirada, combine
Na interminável dança e melodia divina.
Em ti um refúgio contra os nossos medos encontramos,
Esses temores peculiares à espécie humana.
Em ti os pastores, correntes de água e Bodes regozijam,
Tu, amante da perseguição, e a voz secreta do Eco:
As ninfas esportivas, a cada passo teu atendem,
E todas as tuas obras cumprem seu fim destinado.
O poder todo-produtor, tão renomado, divino,
Grande governante do mundo, o rico aumento é teu.
Todo-fértil Pan, esplendor celeste puro,
Em frutos regozijas, e em cavernas obscuras.

A verdadeira serpente-chifruda Jove, cuja terrível fúria
Quando desperta, é difícil para os mortais a aplacarem.
Por ti, a terra largamente voluptuosa, profunda e longa,
Permanece em caráter permanente e forte.
As águas incansáveis ​​do mar reverberante,
Profundamente espalhadas, rendem-se ao teu decreto.
O Antigo Oceano também reverencia teu alto comando,
De quem os braços líquidos rodeiam a terra sólida.
O ar espaçoso, o qual nutre o fogo,
E as explosões vivas, o calor da vida inspira
A concepção mais clara de fogo, cujo espumante olho
Brilha no cume azul do céu,
submete-se igualmente a ti, todo o balanço existente
Todas as partes da matéria, de todas as formas obedecem.

Mudança de toda a natureza pelo teu cuidado protetor,
E toda a humanidade tua dádiva liberal compartilha:
Para estes, onde ela dispersa pelo espaço sem limites,
Ainda encontra tua providência a apoiar a sua raça.
Vem, Bacanal, abençoado poder atraído perto,
Fanático Pan, o Teu humilde suplicante ouça,
Propiciosamente para estes ritos sagrados atenda,
E garanta que minha vida possa conhecer um final próspero;
Guie Pânico e Fúria também, onde quer que encontradas,
Da espécie humana, até o mais remoto limite da terra.

Para Marte

Fumigação de Franquincenso

(Hino LXIV)

Jacques-Louis_David_-_Mars_desarme_par_Venus
(Marte desarmado por Vênus, por Jacques Louis David)

Magnânimo, inconquistável, turbulento Marte,
Que se rejubila nas armas e nas guerras sangrentas.

Feroz e indomável, cujo incomparável poder pode fazer
As muralhas das mais fortes fundações tremerem:
Rei da destruição mortal, coberto de sangue,
Agradado com o terrível e tumultuoso rugido da guerra:
A ti, sangue humano, espadas e lanças lhe dão deleite,
Assim como a terrível ruína da loucura da luta selvagem.
Permanece, em furiosos desafios, e conflitos vingadores,
Cujas obras com aflição, amargam a vida humana;
Para a amável Vênus e Baco se rende,
Para Ceres dá as armas do campo;
Encoraja a paz, para os trabalhos gentis inclinados,
E dê abundância, com uma mente benigna.(13)

lira

Notas:

(1) Trecho da Música “Perenial Sophia” da banda Therion.

(2) Normalmente usado para denominar a Grécia Antiga;

(3) Era dito que sua Lira fora dada pelo seu pai, ninguém menos do que o Deus Apolo;

(4) Eurídice era uma Ninfa extremamente bela;

(5) Caronte era o barqueiro que transportava os mortos através do Rio Estige e Aqueronte. O costume de colocar uma moeda na boca dos mortos se dava a ideia de que precisavam pagar o barqueiro pela travessia.

(6) Esta nota é mais para salientar uma curiosidade sobre o Rio Estige e de sua importância para os gregos e para os Deuses, pois quando faziam juramentos ‘pelo Rio Estige’, ninguém quebrava a promessa, mesmo que significasse uma tragédia; nem mesmo Zeus quebrava um voto jurado pelo Rio Estige.

(7) Cérbero era o gigantesco Cão de três cabeças que guardava os portões do mundo dos mortos, deixando os mortos entrarem e impedindo que saíssem. Também despedaçava os mortais que tentassem entrar pelos portões ainda vivos.

(8) Algumas versões contam que Orfeu era cortejado por várias mulheres, especialmente as Mênades que eram Sacerdotisas de Dionísio e que em um dado momento de violento êxtase, essas mataram Orfeu pela rejeição de suas promessas de amor e prazeres divinos.

(9) Procurei fazer um resumo muito básico apenas para ilustrar um pouco da história de Orfeu e do poder de sua música.

(10) Orfismo foi um culto atribuído a Orfeu com dizeres próprio sobre vida, morte, reencarnação e a natureza da alma e do corpo. Tinha paralelos com o Pitagorismo e foi citado por Heródoto, Eurípides e Platão. Embora existam evidências de “crenças Órficas” entre o Século VI e V antes da Era Vulgar (nossa Era), não há exatidão histórica que comprove o culto ou a existência de Orfeu.

(11) Importante ressaltar o quanto seu nome é poderoso, pois mesmo pessoas mundanas que nada entendem dos Deuses, ainda são capazes de relembrar o nome de Orfeu.

(12) “The Hymns of Orpheus”, Thomas Taylor, 1792, London.

(13) Todos os três Hinos são Traduções livres de Adimiron Ben Theli.

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3 Respostas para “Um pouco sobre Orfeu e Os Hinos Órficos

  1. Tais hino e pintura soberbas, nos transportam para um mundo mágico cada vez mais oculto dos homens pela cultura vulgar e superficial qua sufoca a humanidade. Lindo!!!

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  2. Pingback: Hinos para o Sol, para a Lua e para a Noite | A Nona Direção

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