Um pouco sobre Correntes de Poder e um exemplo de rito na Bruxaria

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Colete o sangue de Kingu do grande mar antigo
E se aproprie das águas primordiais
Dentro de suas veias, a força do demônio flui
Alguma vez você já procurou por sua ascendência?
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Talvez alguns de nossos leitores já tenham visto o termo “Correntes de Poder” em algum dado momento de suas caminhadas; outros, talvez estejam mais familiarizados e com certeza terão muitos que nem mesmo tenham algum dia conhecido tal termo.

Antes de mais nada, devemos manter em mente que em nosso mundo existem inúmeras Correntes de Poder e muitos grupos acessam poderes similares com roupagens diferentes. Muitos possuem Correntes de Poder extremamente ativas e abertas; outros, Correntes de Poder mais difíceis de serem acessadas e há ainda as que requerem treinamento e material específico para tal.

Embora existam inúmeros poderes em nosso mundo (ou que demonstrem alguma manifestação no mesmo), muitos não estão abertos e muitos passam despercebidos.
A ideia de tais correntes se baseiam em segredos e chaves para acessar certos poderes que possuem poucas entradas ou vias de acesso, bem como treinamento e capacidade para tal, sem dizer em alguma inclinação natural para este fim.

Podemos fazer uma breve analogia com um indivíduo talentoso para música, onde seu talento natural o faz perceber com maior facilidade as diferenças sutis das notas e dos sons singelos, tornando-o alguém considerado ‘virtuoso’ quando une ao seu dom natural uma técnica que o ajuda a expandir o próprio talento: esse indivíduo percebe um mundo diferente das pessoas comuns quando se trata de som e de expressão pela música. Ele é capaz de criar preciosidades e de expressar sentimentos dos mais leves aos mais intensos através da música, causando reações instantâneas para aqueles que escutem suas obras, como na música erudita. Nesse caso específico, a música desse indivíduo terá o poder de causar variações de sentimentos quando escutada. Porém, como todos são diferentes, ainda haverá indivíduos que não irão possuir capacidade para ouvir e entender de forma sensorial tal Arte e, mesmo treinando muito, alguns indivíduos apenas aprenderão alguma técnica, mas sem sentimentos ou virtuosismos e facilmente seriam constatados por qualquer outro músico como pessoas ‘sem talento’ ou ‘mecânicas’. Embora muito disso seja sutil e ocorram inúmeras variáveis, podemos dizer que o acesso a certos poderes também dependem do indivíduo, suas origens, sua pré-disposição para tal, seu conjunto de crenças e sua inclinação natural.

Uma corrente de poder é algo que existe e que se movimenta, como um rio incessante, podendo ser acessado com inúmeras máscaras diferentes, mas com similaridades que seriam aparentes. É como uma oração usada por séculos, que adquire certos poderes e acaba em algum conjunto de crenças e poderes devidamente alimentados: essa oração, junto de mais outras acaba por compor o que poderíamos chamar de Corrente de Poder.

Através dos mesmos é possível acessar poderes, sinais, sonhos, chaves e sigilos de variados tipos. Não há limites para o que pode ser acessado através de algumas correntes e as mesmas não possuem limitação de espaço ou tempo; muito menos uma forma em específico, embora os símbolos e sinais sejam sempre similares.

Muitas Ordens trabalham com correntes e o treinamento básico do iniciante o conduz a acessar e se ligar a alguma corrente específica através de seus trabalhos, fazendo com que o candidato ou iniciante sinta e entenda o conjunto de Poderes que compõe suas práticas.

Na Bruxaria existe uma prática interessante que é o da repetição, onde a ideia é repetir um determinado Rito durante um certo número de dias consecutivos afim de se alinhar diariamente a poderes específicos e seus fins. Aliás, essa é uma prática muito eficaz e vale a pena procurar e também elaborar suas versões para testá-las, o que requer um certo nível em tais práticas e um bom conhecimento.

Não ha necessidade de explicações muito complexas a respeito de tais correntes, mas podemos dar exemplos das correntes mais populares, como as Correntes R+C, as Correntes Draconianas, Correntes da 218, Correntes de poder envolvendo culturas diferentes, os espíritos dos mortos, alguma divindade com culto específico ou ainda uma corrente de orações católicas, como uma novena praticada por séculos ou uma hóstia pega numa missa, que pode ser usada, inclusive, para fins próprios; e inúmeras outras correntes que acabam por compor e/ou abranger o universo do praticante, dando-lhe mais afinidade e conexão com as mesmas, ajudando-o a se alinhar com tais poderes com o tempo e muitas vezes, descobrir mais sobre as mesmas sob sua própria perspectiva.

Para acessar tais poderes, normalmente se usa elementos que eram ou que ainda são da cultura ou das práticas em si, como a linguística, forma de culto, sacrifícios, orações, objetos e toda a prática que possa lhe ajudar a acessar certos poderes específicos, pois não é apenas a intenção que o fará ter sucesso, mas o conhecimento, respeito e consideração pela divindade em si ou pelo poder do qual se está tentando acessar ou pelo conjunto de crenças e práticas na qual se está inserido, mantendo os elementos de importância para tais poderes e não para você mesmo, afinal, não há como trocar certos elementos como sangue, por algum suco de uva, apenas pela sua própria limitação de não conseguir matar alguma coisa ou se ferir para obter tal líquido sagrado, respeitando a tradição de tais poderes e as formas em que eram praticadas para que seus praticantes alcançassem seus mistérios e poderes. A mesma ideia segue nos casos de se cultuar Deuses da Guerra sem nem mesmo praticar alguma Arte ou prática que agrade tal divindade.

Muitos usam textos alegóricos que ajudam o praticante a se aproximar de algum estado de consciência distinto, usando em meio aos seus chamados ‘palavras chaves’ que fazem uma ponte para tais poderes, levando-o a uma conexão mais direta ou ainda sentenças no início e no final, como latim, grego ou hebraico.

Porém, normalmente as correntes de poder existem com base na ritualística e na magia, pois uma das ideias é que tais correntes possuam poderes e efeitos, bem como a necessidade de serem alimentadas de tempos em tempos.

Não há definições sobre tal assunto e nem mesmo alguma lista sobre correntes propriamente, mas há como encontrar Correntes de Poder variadas e formas diversas de se ter contato com as mesmas.

Finalizo o texto acima com uma prática para acessar uma certa Corrente de Poder da Arte, do grande escritor e Magister Andrew Chumbley.
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O Rito do Opositor
Retirado de Qutub – Por Andrew Chumbley

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O intento deste rito é somente dar ao praticante a reciprocidade da intenção de invocar correntes através de sua prática. As funções e aplicações deste rito são reveladas apenas através da prática e pelas subsequentes adaptações feitas pelo praticante de acordo com os segredos e direções únicas que vão sendo revelados á ele.

As direções iniciais são as seguintes:

Em um local de solidão e na hora do crepúsculo, acenda uma única vela branca e posicione-a no centro de sua própria sombra. Fique diante da sombra e fixe toda a sua atenção na luz dessa única chama.

Recite a Oração do Desígnio:

 

 A Oração do Desígnio

Como minhas Palavras interrompem o Silêncio, e o Silencio as minhas Palavras
-Assim o fazem suas ressonâncias se alinhando e aumentando Poder
Suficiente para materializar seus intentos.

Como Eu começo – assim faz o Desígnio no qual ante minhas Palavras se tornará!

Minhas palavras me cifram e criam Realidade;
Como Eu falo então estas Palavras rodeiam Possibilidades.

Aquilo que Eu me tornarei irá transcender a tudo o que já tenha sido adorado.

Eu me tornarei diferente do que já tenha sido nomeado. 

Caos é o primogênito de minhas formas
– De onde vêm minhas manifestações.

A Existência em si será eclipsada pela minha Sombra.

Oportunidade é meu Círculo sem Circunferência;
Destino é meu Centro sem Posição.

Magia é minha Força: Energia além da Limitação.

Meu Corpo é Transição: Do Agora até o Agora.

Minhas Palavras me cifram e criam Possibilidades;
Como Eu falo então estas Palavras rodeiam Realidade

Como Eu encerro – assim o faz Tudo – mas não o Desígnio do qual Eu falo.

Como Eu encerro – assim o faz Tudo – mas não aquilo que Eu Sou.

 

Tendo feito, pegue a vela e, movendo-se no sentido anti-horário, vire suas costas para a sombra e proceda recitando a Formula do Opositor:

 

Formula do Opositor

Assim como o Dragão fez espirais no Infinito,
E a Roda do Paraíso girou em seu Coração,
Então deixe Tudo revolver sobre este Ponto.

Como o Círculo girou através das estações da Mudança,
Então agora Eu giro, como o eixo do Destino,
Para manifestar a Palavra da minha Auto Superação:

No Dia de minha Oferenda não há ninguém e coisa alguma
A qual eu não sacrificarei.

No Dia do meu Tornar-se não haverá ninguém e coisa alguma
A qual eu não transcenderei.

No Dia do meu Juramento não haverá ninguém e coisa alguma
A qual eu não renegarei.

Pois Eu sou o Transgressor do Eterno Vazio
Azal – Abad
No qual tudo é oposição.

Eu sou a ponte que cruza o Abismo e que possui apenas uma única borda.
Meu Caminho é o Relâmpago – brilhante e veloz. 

Estas Palavras são apenas o eco que marcou a minha Ausência.

Silêncio – o choro do Nascimento para anunciar a Presença:
Da Alteridade Completa
Feita Carne.

 

 

Tendo completado isso e também outros atos adjuntos que julgar pertinente, vire-se uma vez mais para completar uma volta inteira e, em silêncio, levante a vela em saudação á sombra. Com um único sopro ou prece apague a vela. Então, pela mesma direção, saia do local de solidão e não vire para trás – como é de costume na Arte.

A oração do desígnio também pode ser usada em isolamento ou como um adjunto/declaração em coisas como procedimentos rituais/mediativos. Um exemplo de adaptação na prática do ritual é dado abaixo:

Uma contradição ao virar de frente ou de costas para a sombra, como determina os ritos de polaridades, empregue algumas analogias estelares como a Estrela Polar e a Estrela Cão. Também pode ser alterada para horário e anti-horário de acordo se o rito é feito no anoitecer ou no amanhecer – ou se é feito na parte escura ou brilhante do mês lunar.
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Notas:

(1) Trecho inicial da música “Blood of Kingu” (Sangue de Kingu) da banda Therion;

(2) Tradução livre de Adimiron Ben Theli, MMXII da Era Vulgar;

(3) Andrew Chumbley, Qutub, pág 63-65, 1995, Xoanon.

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9 Respostas para “Um pouco sobre Correntes de Poder e um exemplo de rito na Bruxaria

    • Olá Lucy Navarro,

      Agradeço pelo comentário.
      Este ano pretendo retomar o blog, consertando links e banners quebrados, adicionando novos links e abrindo espaço para postagens em inglês; mas provavelmente fora do facebook.
      abs
      Leonard Dewar

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      • Boa tarde Leonard, em primeiro lugar obrigada por responder. Estou ansiosa aguardando novas postagens, esqueci de perguntar sobre a página do facebook, não esta mais disponivel? através dela descobri que o Temple Of Ascencing Flame estava com as postagens em português. Muito Obrigada!

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      • Olá Lucy,

        Ainda este ano irei reformar o site e terei novas postagens.
        A página no facebook não existe mais e ainda não decidi se voltará a existir…talvez alguma página mais genérica sobre o tema.
        O Temple of Ascending Flame estará realizando um projeto aberto em Abril e terá tradução para o português.
        Até mais,
        Leonard Dewar.

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  1. Boa tarde, página incrível e disponibilizar esses conteúdos em português é admirável.
    Fiquei em dúvida ao significado de Azal – Abad e que força energética o rito tenta entrar em sintonia?
    Obrigado

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    • Olá Oliveira!
      Azal é a eternidade sem início, sem princípio.
      Abad é a eternidade sem fim.
      Uma expressão poética extremamente poderosa…
      Note que esse ritual dado pelo sábio e falecido Andrew Chumbley possui inúmeras referências e invocações de si mesmo (e do EU como TUDO) extremamente poderosas! Cada frase carrega significados extremos, fortes e poéticos.
      Sem dizer que é uma afirmação e determinação sem iguais, quanto ao próprio Caminho.
      Acredito que esse rito carregue inúmeros poderes e sentidos, variando suas formas e expressões, de acordo com o EU de cada Andarilho, frente ao Todo numa ideia de metamórfica e ao mesmo tempo divino, mas aí é apenas uma das minhas próprias visões.
      Abs!

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