O Voo Noturno: um pouco sobre Sonhos Lúcidos, Viagens Oníricas e Projeções Astrais.

Ascension
(Austin Osman Spare)

(1)*

“Em um sonho
Eu estou escalando as nuvens
Eu toco um céu conquistado
Com minhas mãos nuas”
(2)

Muito é dito sobre viagens a outros reinos de manifestações através dos sonhos, mas pouca coisa realmente é dita e menos ainda alcançada.

A ideia que muitas pessoas possuem desse tipo de viagem, consiste em ideias totalmente simplórias, como se todos fizessem viagens astrais a todo o momento, apenas não se lembrando ou ainda persistindo numa ideia de que ao fechar os olhos, sua alma sai do corpo todas as noites para visitar outros locais. Não que essas ideias não possuam alguma lógica ou sentido, mas temos que observar que tais ideias partem em sua maioria da doutrina espírita Kardecista, portanto, carrega o peso de seus ensinamentos moralistas e cristãos, como por exemplo, a ideia de que não se pode usar a viagem espiritual para fazer maldades, espionar ou alterar eventos, descobrir talismãs, símbolos, poderes, etc… e como o mundo não é regido pela lei cristã, devemos dizer: é claro que se pode. Aliás, descobrir poderes, símbolos, contatar entidades de variadas naturezas, ir a reinos de seres de comportamento ou tendências variadas e se fortalecer de inúmeras formas é simplesmente a ideia básica daqueles que trilham o Caminho.

Inicialmente, devemos separar as ideias populares sobre “viagem astral” e observar que o individuo deve ‘galgar’ em certos aspectos e práticas, parte por parte, antes de ser bem sucedido em ir parar em outros ‘lugares’, os quais muitos são acessíveis através de outros meios além dos que envolvam “dormir”, porém, vamos tratar do assunto nesta direção, tentando mostrar de forma básica como pode ocorrer tal evento.

É claro que várias pessoas possuem sensibilidades e talentos diferentes e algumas podem apresentar dificuldades ou facilidades para tais assuntos. É como qualquer talento ou dom natural: você já começa com tendências e facilidades em determinada área, porém, isso não o faz alguém ‘preparado’, apenas com certa vantagem no aprendizado. Tentarei separar as ideias básicas do processo em si, para melhor entendimento.

Sonhos

Basicamente, antes de qualquer coisa, o indivíduo deve saber sonhar. Todos sonhamos, simples assim. Porém, há diferenças entre pessoas, como por exemplo, a gama de cores, brilhos e contrastes, assim como os sentidos mais ativos durante seus sonhos: olfato, tato, audição, visão, paladar e cada um deles num nível diferente. O mais comum é a visão e a audição nos sonhos. O olfato, o tato e principalmente o paladar são mais difíceis para a maioria. Tudo deve ser treinado, anotado e melhorado.
O interessante dos sonhos é que a maioria só lembra a partir da metade ou do final dos mesmos, nunca o início. Aliás, a maioria não se dá conta de que está sonhando na grande maioria das vezes e, quando entendem que é um sonho, acabam acordando.

Inicialmente deve-se manter um diário de sonhos. Parece besteira, mas quem um dia pretende se aventurar em viagens a outros reinos, deve tentar andar cada passo por vez. Anotar os sonhos assim que se está acordando, antes mesmo de se espreguiçar ou acordar por completo: deve-se anotar quando ainda nem mesmo estiver completamente consciente, pois os sonhos somem de sua memória a cada segundo que se passa após o despertar e normalmente são varridos por completo durante o dia. Quando você anota seus sonhos, além de você gravar o principal, mesmo que você esqueça mais tarde, o simples ato de ler o que escreveu trará para sua mente o sonho todo de uma vez, como uma lembrança trazida do fundo de sua mente, com todas as sensações e emoções do mesmo de forma súbita. Repetir esse processo inúmeras vezes garante, cada vez mais, uma memória onírica mais afiada e útil, podendo lhe dar a chance e a capacidade de se lembrar de coisas importantes, que são úteis tanto quando se tratar apenas de sonhos, quanto se tratar de viagens a outros Reinos e contato com entidades e poderes: é como se o que está escrito fosse uma ponte para as memórias do subconsciente, aumentando assim, seu controle e percepção.

Os simples avanços relativos aos sonhos produzem efeitos perceptíveis a médio prazo na vida do indivíduo, tanto na criatividade quanto na percepção mental no seu dia-a-dia.

Sonhos Lúcidos

O primeiro passo após melhorar a consciência onírica, ou seja, estar mais ligado aos próprios sonhos, conseguir se lembrar de boa parte dos mesmos e aderir a uma rotina de anotá-los; o indivíduo deve tentar atingir o grau de ‘Sonhos Lúcidos’, o que significa, gradativamente, consciência de que se está sonhando; percepção e estimulação dos próprios sentidos através dos sonhos, indução de sonhos planejados e ainda a manipulação dos mesmos. Pouco-a-pouco o individuo tende a criar sua própria realidade cada vez que adormece: seus medos e pesadelos poderão (e deverão) ser confrontados de forma eficaz; seus desejos poderão ser atendidos pelas suas vontades; testes de capacidade/criatividade deverão ser observados e tudo o mais que o ‘sonhador’ desejar e, principalmente, a Arte de controlar deverá ser observada, nunca se esquecendo de anotar seus progressos.

Ordens e grupos tendem a explicar passo-a-passo tais técnicas e tornam requisito básico para trabalhos posteriores. Existem livros e apostilas, bem como matérias para aprender tais passos de forma detalhada, não precisando ser detalhado aqui neste espaço.

O que é popular e pode ser usado em favor de controlar seus sonhos é um símbolo que muitos usam que consiste em lembrar, no meio do sonho, a olhar para a palma de sua mão esquerda. Quando o individuo for capaz de fazer esse gesto simples (nem tanto no início), ele será capaz de usar tal gesto como uma alavanca que o fará tomar a consciência de que além de estar sonhando, possui o poder de alterar o próprio sonho de forma consciente, de forma lúcida.

Outra característica de Sonhos Lúcidos é a realidade fiel que o mesmo reproduz. Sonhos reais tendem a lhe causar emoções como se os mesmos fossem realmente verdadeiros, desde dor, medo, prazer, felicidade, etc. Sempre deve-se testar nos sonhos a textura dos objetos, as cores, a iluminação, os detalhes a sua volta, o cheiro das coisas, o gosto, a temperatura e tantos outros detalhes que na maioria das vezes escapa dos sonhos comuns.

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Viagens Oníricas e Projeções Astrais

Nesta parte entramos num território um tanto relativo e aí inúmeras interpretações serão usadas por diferentes grupos ou ordens, mas que é a porta de acesso para viagens reais e contatos externos.

As viagens oníricas podem ser ilustradas como viagens internas ou como um campo onde é possível traçar ‘Portais’ para acessar outros lugares. Podemos acessar parte de nós mesmos e de entidades pessoais, ligadas a nós pelo sangue e pelo espírito, ou facetas de nós mesmos.

Há também as interpretações de que haja um ‘mundo onírico’ em comum, como um plano de existência a parte, onde todos podem se cruzar. Essa ideia é interessante e deve ser explorada pelo praticante, se assim o desejar.

Claro que nesse estágio o sonho lúcido é uma constante e há o controle e a consciência do próprio sonho. E é aí que se pode encontrar ‘passagens’ para viagens externas. Normalmente podem (e devem) ser induzidas pelo indivíduo, que criará símbolos e locais e procurará por um Portal, seja para entrar no que achar ou para fazer um portal, abrindo uma passagem por conta própria.

Quando o individuo atravessa esses portais, ele fica engajado numa viagem externa, além de seu ser. Há vários relatos e experiências sobre a forma em que os praticantes fizeram tal viagem, desde se observar dormindo a poderem viajar para locais que nunca conheceram e presenciar ou passar por situações antigas e/ou distantes, seja em locais que não existam fisicamente, mas que puderam ser vistos e sentidos de forma real.

Uma das técnicas é usar sigilos como portais e, neste caso em específico, o sigilo deve ter ligação com o que você deseja acessar ou com o tipo de lugar que deseje ir.

Outra técnica, se tratando de Caminho da Mão Esquerda, é a de descer em uma escada espiral, direto para a escuridão, acessando reinos mais densos e profundos, onde jaz criaturas e entidades mais sombrias com conhecimentos proibidos.

Ainda existe a ideia de voar para algum portal, mergulhar em águas profundas, subir escadas, entrar em chamas, entrar nas sombras (como na de um canto de alguma parede sombria) e algumas vezes de morrer para descer ao submundo. Seja o que for, deve-se ter uma boa prática nos requisitos acima para tal e manter os mesmos hábitos de anotar e sempre tentar avançar no que diz respeito dos aprendizados nos próprios sonhos.

Em alguns casos mais avançados, é possível entrar no estado Lúcido ainda em estado de vigília, mantendo-se consciente e iniciando a viagem astral ainda acordado, o que fará com que tudo seja mais real, inclusive as sensações físicas, como se o seu próprio corpo material estivesse indo para tal viagem, o que também pode acarretar sensações negativas, principalmente se for súbita, como por exemplo, a dor. O controle deve ser exato e a tranquilidade deve ser mantida, pois sentimentos muito poderosos podem arrancá-lo de sua viagem e jogá-lo de volta ao corpo material e, em certos casos, nem mesmo em casos mais desesperadores ou extremamente extasiados, o individuo consegue “acordar”. Porém, uma das defesas mais naturais é o de despertar.

Alguns simples adendos

Existem as projeções Astrais advindas da meditação e de estados alterados de consciência, o que inclui inúmeras técnicas e situações bem diferentes, sem dizer num controle maior e abordagens distintas nos processos. Porém, é recomendado primeiro ‘aprender a sonhar’, pois o limite traçado pelos sonhos possibilita que primeiramente se aprenda a ter consciência e a poder interagir de forma consciente com o seu “próprio universo” e, após se tornar ‘Senhor’ do mesmo, aí sim, as chances de se aventurar em ‘outros reinos’ se torna mais palpável.

Além desse básico, possuo grande desejo de escrever sobre o Voo das bruxas e alguns aspectos que giram em torno dessa famosa alegoria, assim como os poderes de certas plantas ligadas ao ofício da Arte sem Nome, mas como estou me limitando ao básico do assunto proposto, assim o manterei e, em alguma postagem futura, irei abordar tal assunto.

Como citado acima, existem pessoas que nascem com mais sensibilidade e facilidade para alguns assuntos mágicos em específico, mas isso não os torna eficaz de forma efetiva; apenas lhes é mais fácil compreender e absorver do que pode ser para a maioria dos outros. Muitas pessoas já tiveram situações de que controlam os seus sonhos, de que sabem estar sonhando; outras poucas presenciam sonhos extremamente reais, mas sem controle; existe ainda aqueles que as vezes ficam conscientes nos próprios sonhos e que inclusive os controlam em algumas ocasiões, porém, não se enganem: acertar aleatoriamente é como um jogo de azar: não adianta esperar “acertar” e isso acontecer de forma incerta ou esperar longos períodos para ter algum sucesso sem direção, enquanto todos os outro dias são de fracassos sem aprendizado algum. É como atirar cem vezes para conseguir acertar o alvo uma única vez, contando com a sorte. Isso é desperdício de tempo e de energia, sem aprender como seu próprio dom pode funcionar, contando com o acaso. Devemos acertar o alvo quando precisarmos, sabendo aproveitar a chance quando nos aparece, entendendo assim, como devemos atirar para acertar o alvo até sermos precisos; até entendermos ‘como fazer’ de forma efetiva.

“Um bruxo não pode ser Senhor de coisa alguma antes de ser Senhor de si mesmo. Um Bruxo não pode ser Senhor de si mesmo se não for Senhor nem mesmo de seus próprios Sonhos.”
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Nota do Autor:

Primeiramente, é bom deixar claro que este espaço não tem como objetivo ensinar alguma Arte Oculta e, caso sirva como ponto de partida ou transição para que outras pessoas direcionem seus estudos e práticas ou se acabar por si só sendo alguma referência ou um mero local onde os interessados sobre tais assuntos compartilhem de ideias similares; ou ainda apenas apreciem os textos e suas temáticas, então assim o será; sem pretensão ou planos mirabolantes sobre o futuro deste espaço e dos seus textos e linguagens. Portanto, posso disponibilizar artigos, textos e conceitos; bem como compartilhar práticas, exercícios e Chamados envolvendo algum tipo de poder ou entidade, sem me colocar, de forma alguma, em qualquer posição que seja. Neste caso em específico, tudo corre de forma natural, sem objetivos ou pretensões maiores do que realmente já esteja acontecendo.

No mais, agradeço as visitas e também a leitura de meus textos.

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(Austin Osman Spare)

Notas:

(1) Este texto é um Ensaio escrito a partir de ideias e experiências do próprio autor, resumindo,  de forma básica, ideias iniciais que tendem a dar uma impressão sobre o tema para os leitores.

(2) Letra da música “In a Dream” (Em um Sonho), da banda Tiamat.

(3) Citação de Adimiron Ben Theli.

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