A Natureza inconcebível de Lilith

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“Elixir do Ventre,
Obscura fonte dos Caídos,
Com estas águas
Eu esta poção fermento:
Fonte escura das veias de Elphame,
Sangue dos Anjos recém-assassinados,
E Néctar da escuridão de Morpheus feito,
Das malditas Flores das Sombras.”
(1)

Muito já fora escrito sobre a Rainha do Sangue, principalmente sobre alguns dos sincretismos de suas origens e também das advertências de se chamar o seu nome esperando algum tipo de “Deusa mãe” que vai lhe acolher abaixo de suas asas. A ideia desta postagem é tentar esclarecer algumas ideias sobre tal figura, realmente importante tanto na Bruxaria quanto em inúmeras vertentes, crenças e sistemas.

Longe de se tratar de verdades absolutas ou indicando o que seja certo ou errado, a pretensão deste texto é a de escrever e descrever um pouco sobre algumas visões e trabalhos que envolvam o seu nome e seus terríveis poderes. Sim, “terrível” é algo que se encaixa quando tratamos da ‘Mãe do Sangue’, concebida e comparada sob inúmeros aspectos com atributos de várias outras divindades e, ao mesmo tempo não sendo nenhuma delas em específico, Lilith é uma gama de poderes incontroláveis, cruéis, implacáveis e costuma mexer com nossos piores medos e temores, trazendo a tona traumas e seduções que fazem muitos se perderem em meio aos piores sofrimentos e os prazeres mais intensos, sem nem mesmo conseguir diferenciar quando é que muda de um para o outro.

O fascinante é que ao mesmo tempo em que há um vasto material sobre Lilith, o conhecimento sobre a mesma continua obscuro até mesmo para aqueles que se recolhem ante as sombras de suas asas; menos ainda para os que não entendem o que Ela possa significar e a confundem como algum tipo de ‘Deusa amorosa’.

Talvez em sua origem como divindade, antes de tantos sincretismos e relações com outros povos, Lilith possa ter sido uma Deusa Mãe, mas com outro nome. Embora seja apenas uma suposição, como citado por Michael Howard:

“O mito de Lilith remonta a pelo menos 3.000 a.c., na Suméria, e ela pode estar relacionada à Deusa babilônica Belitili e à Deusa canaanita Baalat, a “Dama Divina” que era consorte do deus da tempestade, Baal. Lilith pode ter sido, em sua origem, um aspecto da Grande Deusa Mãe cultuada pelos primeiros agricultores, representados na Bíblia pelo Mestre Qayin. Os hebreus não gostavam dessa Deusa porque Ela bebera o sangue do pastor Abel depois que ele foi assassinado pelo antigo Deus da agricultura e dos ferreiros.”
(2)

É claro que isso fica no campo das possibilidades e das especulações históricas, uma vez que a imagem de Lilith e seu papel durante os milênios não somente se transformaram, mas também a ajudou a permanecer, de certa forma, presente em diversos locais ao mesmo tempo até os dias de hoje, afinal, seu nome continua sempre conhecido, seja trazendo temor, fascínio, aprendizado ou ainda presente como símbolo de revolta e transgressão; talvez até mesmo similar ao símbolo de desobediência e Caos como a do Mestre Qayin. Aliás, seus mitos claramente se cruzavam, estando ligados, inclusive, por parentesco e sangue:

“Alguns cabalistas acreditavam que Caim era filho de Eva com o consorte de Lilith, Samael (Lumiel).”
(3)

Ainda nesse contexto, temos mais comparações:

“Na tradição judaica, Lilith era a “velha feiticeira da noite” ou a “coruja que pia”. Em Isaías 34:13-15 há referências ao reino de Israel tornando-se a “habitação dos Dragões e uma corte para as Corujas”. O texto prossegue, dizendo: “…o sátiro [o seirim Azazel] clamará por seu companheiro; a coruja que pia repousará ali também… A grande coruja [Lilith] fará ali seu ninho e botará seus ovos e eles eclodirão [demônios] e os reunirá debaixo de sua sombra”
(4)

Talvez tenha sido na idade Média que suas historias sombrias tenham ganhado mais força e cristalizado de forma permanente, pois após tantos milênios de sincretismos com Deuses e Demônios de forma simultânea, os cristãos acabaram por dar mais força ao medo crescente desta Divindade sem nem ao menos perceber que dessa forma, alimentavam o poder e a influencia da mesma, assim como também o faziam o povo no geral:

Na idade Média, sua transformação de Deusa em demônio estava completa. Ela era conhecida, popularmente, como duende, “fantasma da noite”(termo também usado para descrever as corujas), vampira, avó do Diabo e mãe de todas as bruxas. “
(5)

Fazendo parte de seus atributos, também temos a descrição de Lilith na Astrologia, como um asteroide descoberto em 1720 nomeado com seu nome, que possui um terço do tamanho da Lua e órbita três vezes mais distante da Terra e que só pode ser avistado a cada seis meses, nunca diretamente, sendo visto apenas quando sua sombra cruza o Sol.

“O grande Sepherial foi quem escreveu sobre esse asteroide pela primeira vez em termos astrológicos e, em um mapa astral, representa a vingança (supõe-se que Ela tenha começado a briga entre Caim e Abel),degradação (especialmente de natureza sexual), tentação (mesma conotação anterior), sedução, traição e compulsões. Ela também governa os partos natimortos, envenenamento, aborto, morte no parto e desenvolvimento físico e emocional anormais.”
(6)

O autor ainda apresenta outros aspectos:

“O único aspecto positivo é que a pessoa que tem a Lua Negra destacada de forma proeminente em seu mapa natal será vista como alguém misterioso e fascinante ao sexo oposto. No entanto, se infligida, a influência nefasta de Lilith acarreta ciúmes nos relacionamentos e problemas matrimoniais. Ela também pode levar homens a situações comprometedoras de natureza sexual, em especial se for moralmente correto ou de caráter reprimido.”
(7)

Além de toda sua conotação sexual, como Rainha dos Demônios há uma citação interessante usada por este autor na postagem passada sobre “Bruxaria, Bíblia e sincretismo religioso: Parte 2 – Bruxaria e cristianismo”, que diz o seguinte:

“Aliás, dizem que Lilith gerou a raça de fadas e elfos que eram considerados pelas religiões ortodoxas patriarcais como Demônios”.
(8)

Interessante essa observação, uma vez que a visão de “Demônios” é condicionada aos sincretismos baseados na histeria da mitologia cristã. Não obstante, sabendo que tudo o mais de criaturas que não fossem Santos e Anjos eram olhados como demônios dos reinos das trevas ou ‘filhos do Diabo’, não seria de se espantar se em algum dado momento, Lilith fosse considerada geradora de outras criaturas para os povos que não fossem cristãos, uma vez que em sua história mais recente, um de seus títulos é “Genitora dos Deuses”(9).

5

Muitos devem se perguntar qual o motivo de se trabalhar com tal Divindade, uma vez que seus atributos principais seja o de devorar bebês e matar tanto a criança quanto a mãe no parto; ser uma predadora sexual que drena a força vital dos homens enquanto os asfixia sentada em seus peitos; causar perversões, descontroles e degradação sexual, ciúmes; despertar e/ou descontrolar instintos e medos de formas imprevisíveis e por parecer que essa força seja completamente ameaçadora e perigosa. Ela não apenas parece ser isso tudo: Ela é isso e muito mais!

Na Bruxaria Lilith é representada como  a ‘mãe do sangue-bruxo’, ou a mãe dos que possuem a ‘Marca de Qayin’. Tal título pode parecer como algo bom, uma vez que a palavra “mãe” traz conotações próprias para a maioria das pessoas. Na Bruxaria Tradicional, tal ‘título’, neste caso, deve ser compreendido de uma forma completamente diferente, sendo ligado apenas como uma ‘linhagem’, não literal, mesmo que haja alguma referência ou ligação, pois é mais fácil alguém ‘do sangue’ ser atendido quando chamar pelo seu nome do que uma pessoa comum e ignorante.

A visão de Lilith nunca é a mesma e suas máscaras são infinitas. Podem variar de situações, formas belas e sedutoras, criaturas horrendas e aterrorizantes ou ainda ambos ao mesmo tempo. Não há uma ‘forma’ definida, nem mesmo há uma “personalidade” como há para cada Deus que chamamos. Lilith não ‘escuta’ ou ‘entende’ o que você pede. Ela não racionaliza e não possui tantas preferências ou caprichos mundanos. Os trabalhos que envolvam Lilith são descritos como horríveis e os aprendizados surgem de dores absurdas e constantes, como se o bruxo fosse arrastado pelos cabelos através de um caminho de espinhos afiados, dilacerando seu corpo enquanto o mesmo grita de dor e desespero, sem que Ela pare e sem que Ela atenda a qualquer súplica que fizeres. Ela te arrasta e só te solta quando o Caminho terminar, sem se importar se há algum aprendizado nisso ou se você será capaz de levantar e continuar, ou ainda, se “caminhará” com Ela novamente. Não é como se Ela possuísse alguma preferência ou sentimento, algum pensamento ou objetivo. Ela é um poder muito além do que pode ser entendido, muito além das racionalizações.

Lilith é como um Dragão que enxerga apenas dois tipos de pessoas: Filho ou alimento. Sendo que um pode se tornar rapidamente o outro num piscar de olhos. Ela não possui piedade, principalmente de seus descendentes (os que pertencem ao sangue).

Os trabalhos realizados com Lilith tendem a usar parte de seus poderes e influencias para fins próprios, sejam maldições ou para chamar certas entidades que possuem conexões com a mesma.

Lidar com tais energias podem trazer tanto a sabedoria quanto a loucura para os que andam o Caminho com a Deusa Demônio. Ela está presente e é compreendida como algo incompreensível em si. Um mistério macabro e sombrio, que é tanto sedutor quanto aterrorizante, que tanto nos traz uma estranha sensação de identificação quanto um perigo constante, que é superado quando se está mais consciente de tal poder não de forma racional, mas com os sentidos alinhados e certos limites dentro do próprio conhecimento.

Lilith rege sobre seus desejos mais sombrios, suas compulsões e perversões. Ela põe a prova os pensamentos e desejos reprimidos e quando falamos em tentação ou prazer, não há como dividir o deleite aceito e controlado do que poderia ser considerado sujo e grotesco, como se fosse um porco chafurdando na lavagem e sujando o corpo inteiro, sentindo prazer incomparável e desenfreado enquanto come em meio a podridão.

Lilith está ligada aos excessos, a ausência de limites, ao autoritarismo ou liberalismo desenfreado, a doenças psíquicas ligadas ao sexo e a obsessão. Ela desenterra os assuntos não resolvidos, os traumas e arrependimentos. Ela enfia as garras em suas feridas sem hesitação e sem aviso, obrigando-lhe a lidar com aquilo que fora escondido, reprimido ou evitado, por medo ou por incapacidade de lidar.

Caminhar com Lilith é uma armadilha de si próprio para si próprio, colocando a prova seus medos e fraquezas, suas limitações e compulsões. O descontrole e a agonia de estar sendo devorado é algo que mesmo sentido, talvez, no início da Caminhada, nunca deve ser constante, ou seu fim se dará das piores formas, lentamente, enquanto Ela se alimenta da tua carne, da tua mente e de teu espírito. A queda é inevitável e é justamente disso que se trata parte de sua sabedoria e aprendizado: o quanto você é capaz de levantar, cada vez mais forte; ou do quanto você aguenta antes de morrer pelas garras Dela. Filho ou Comida. Não há meio termo. Não há misericórdia. Apenas se lembre que Ela devora crianças na barriga da mãe, causando abortos ou parto natimorto; que Ela pode matar inclusive a mãe da criança: não espere que Ela preencha suas carências, pois se tiver tal sentimento, o mais provável é que Ela lhe corroa os sentimentos e aflições pelas suas fraquezas, por mais cruel que possa ser, até sua Ascenção, loucura ou morte.

Não há avisos. Não há preparação. Não há tolerância. Lilith faz o que deve fazer e suas formas são imprevisíveis.

Mesmo com todas as definições no texto, ainda há o fato de que Lilith não pode ser definida, pois é aí que mora mais armadilhas. Quando você acha que pode defini-la ou prever algum de seus movimentos, é exatamente quando tudo ocorre de forma imprevisível e contrária, portanto, não há como definir de forma racional, pois Lilith é tudo e nada. É a escuridão primordial da criação, o útero da escuridão completa ao mesmo tempo em que é a escuridão da destruição final e também a escuridão de tua alma. Ela pode ser tudo isso e além e também pode ser exatamente nada disso, como o eterno vazio.

Embora sua natureza seja cercada de elementos e aprendizados terríveis, nós sempre honramos Lilith como nossa terrível mãe, a Rainha Demônio, Senhora das fadas, genitora dos Deuses e dos Demônios, Mãe criadora e esposa de Qayin, Senhora do Sangue, Dragão Primordial e inúmeras outras alcunhas. Sempre lhe prestamos honras em alguns rituais e mantemos por perto algo de sua natureza, sabendo que todo o terror que Ela controle e usa inclusive contra seus filhos, já reside dentro de nós mesmos. Nós partilhamos das bênçãos e maldições de nossos antepassados, tanto humanos quanto divinos e Lilith não é de forma alguma uma exceção.
(10)

“Sou como a coruja do deserto, como uma coruja entre as ruínas.”
(11)

3 (48)

Notas:

(1) Daniel Schulke, Ars Philtron, editora Xoanon, 2001 – Oração do Mercúrio de Lilith, pag 105;

(2) Michael Howard, O livro dos Anjos Caídos, editora Madras, 2011, pag 89;

(3) Ibid;

(4) Ibid;

(5) Ibid;

(6) Ibid, pag 90;

(7) Ibid;

(8) Michael Howard, Nigel Jackson, os Pilares de Tubalcaim, editora Madras, pág 151;

(9) Podendo-se fazer associações com o fato Dela ter sido a Mãe dos da Linhagem de Qayin e ainda associações com as trevas e o caos primitivo, como a terrível e poderosa Deusa Tiamat;

(10) a segunda parte do texto é expressada pelos conhecimentos e experiências adquiridas pelo autor do mesmo, não figurando em verdades absolutas, mas apenas uma parte de sua visão a respeito do tema;

(11) Salmo 102:6.

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