Bruxaria, Bíblia e sincretismo religioso – Parte 1: A Origem do Deus do Velho Testamento

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Ani amarthi: Elohim áthem u-vnei Elion kulkhem!”
(1)

 

Comecei com a frase acima para explicar (e também lançar certos questionamentos) sobre alguns pontos que ligam a Bíblia aos Deuses Antigos e depois sobre Bruxaria (2).

É claro que a maioria dos leitores torcem o nariz logo que enxergam a palavra “Bíblia”, “monoteísta” ou “cristão” num site onde o nome “Bruxaria” aparece como um dos temas principais. Mas isso é facilmente explicado: resistência e medo.

A ideia é que durante nossas vidas somos bombardeados de elementos e valores cristãos, o que cria traumas e sensações de culpa ou de medo enquanto ainda estamos ‘presos’ tanto na mentalidade quanto em nossas visões.

Normalmente existe uma revolta imensa dos ditos “pagãos” quando se entra em questões que abordem ou tenha algo a ver com “cristãos”. Os Judeus não costumam incomodar tanto quanto os Católicos nesses assuntos, embora as Religiões de Livro (3) são amplamente mal vistas e mal interpretadas por outros grupos.

Acredito que a bruxaria foi distorcida em inúmeros níveis, tanto graças a Wicca quanto às massas que usaram-na como um escudo ou bandeira para afirmar algum tipo de ‘diversidade’, como feministas, homossexuais ou apenas pessoas que possuem algum ódio ou raiva ao cristianismo. A figura da “Bruxa” foi usada para questões ambientais, políticas, terapêuticas, explicações psicológicas distorcidas e todo o tipo de “ferramenta” para que pessoas pudessem “se encontrar” – seja lá o que isso realmente significa nesses casos absurdos – e todo o tipo de ideia do gênero, MENOS para a Bruxaria em si.

Quando existe um grupo formado de pessoas que tentam buscar uma identidade coletiva, além de tentarem alguma mudança em suas vidas, também tentam se afirmar como “algo” ou “pertencente a algo”, o que gerou teorias absurdas como ‘Antiga Religião da Deusa’.

Normalmente, algum tipo de ódio ou não aceitação gira em torno desses grupos e pessoas, odiando algo em comum que, nesse caso, seria o cristianismo. Afinal, o pensamento lógico de se negar o cristianismo e de tentar se sentir “menos” parte do mesmo, faria com que a afirmação fosse mais forte.

Não vejo diferença alguma quando um dito “pagão” nega o cristianismo como um todo, diz que ‘nada daquilo existe’ ou afirma que não há conexão de suas práticas, valores ou mentalidade com as dele próprio, como um tipo de repulsa ou negação, como as de um protestante de fraca fé, que precisa afirmar e reafirmar o tempo todo aquela crença que ele mesmo não é capaz de sustentar sozinho. Em ambos os casos, tanto esse dito “pagão” quanto o “evangélico” são pessoas que possuem graves problemas e traumas e que suas formas de lidar com o problema, normalmente envolve uma prática similar: mesmo que o evangélico tente convencer os outros ou expor sua fé ao máximo, para aos poucos tentar afastar suas próprias dúvidas e sentir-se melhor internamente e, o dito pagão, tenha que negar o cristianismo e o que ele chama de “judaico-cristão” e qualquer de seus elementos, como se fosse algo proibido e que tivesse de ser mantido ao máximo de distância de qualquer forma; isso que dizer que aquela crença ainda o machuca e possui influência em seu interior em algum nível que ele mesmo TEME e NEGA.

Ambos são extremamente parecidos. Ambos estão no mesmo barco e com problemas similares, mesmo que suas máscaras sejam diferentes para aqueles que enxergam apenas o externo.

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Voltemos ao tema central do texto (que de forma periférica, nunca fora desviado).

A frase inicial se trata de um versículo do “Velho Testamento”, onde a tradução seria “Eu disse: Vóis sóis Deuses, e todos filhos do Altíssimo”. Tal frase se encontra num Salmo Bíblico e a polêmica e estudos que tem causado são das mais variadas fontes, principalmente, por YHWH comparecer a uma “Assembleia Divina, julgando entre os Deuses”(4). Depois de diversas pesquisas e de ler artigos muito interessantes, chegamos a conclusão que o Velho Testamento fora escrito durante séculos e seus livros não possuem necessariamente ligação entre si, possuindo, inclusive, séculos de intervalo entre um livro e outro, aparecendo mudanças culturais e religiosas de um modo geral(5). Um dos pontos centrais é que como os Hebreus migraram e se encontraram com outros povos (nesse caso os povos de Canaã) que tinham seus próprios Deuses, observamos um tipo de sincretismo de YHWH com os Deuses Canaanitas ao longo do tempo, o que acabou fazendo o tão famigerado “deus único” (que na época era dito como um Deus do Deserto, que era de onde seu povo havia vindo) ser reconhecido como um filho de EL, que era conhecido como “O Altíssimo”.

Resumindo bastante, podemos observar que EL era o “Pai dos Deuses” junto com sua Asherah, “A Senhora do paraíso”, a “Sagrada”, “Aquela que anda sobre o mar”. Juntos eles eram os pais de todos os Deuses, um para cada Nação(6) e pode-se fazer inclusive uma ligação que YHWH era filho de EL e sua ‘Nação’ era Israel(7).
um dos títulos de EL era EL Elyon que significava “Deus nas alturas” –  “EL” significava simplesmente “Deus” e o “Altíssimo”, assim como sua Esposa, possuía vários títulos, como “Pai dos Deuses”, “Pai do homem”, “Criador eterno” e etc.

Observando boa parte dos mitos judaico-cristãos, podemos perceber que EL no final de nomes dizem que algo pertence ou deriva de “Deus”, como o nome de Anjos, por exemplo Mikael (O que é igual a Deus)(8); Raphael (Cura de Deus), Gabriel (Força de Deus) e assim por diante.

O problema, é que pesquisando sobre historiadores que dedicam parte de suas vidas estudando, viajando e analisando os idiomas mais antigos e completamente fragmentados, percebemos que ainda não há conclusão de ”quem influenciou quem” nos mitos da Criação: se foram os Hebreus que influenciaram os Canaaneus ou se eles foram influenciados, ficando, ao que parece, a maior parte dos estudiosos com a segunda opção(9).

Com o ganho de poder político e militar, o povo de YHWH foi ganhando mais influência e os conservadores foram aumentando o poder e a influência do culto de seu deus, até ao ponto dos outros Deuses serem Demônios e de YHWH tomar o lugar de EL como Deus dos Deuses, assim como sua esposa Asherah.

Até o Século I antes de cristo, ainda haviam Judeus que acreditavam em Asherah e a viam como “Esposa de YHWH”, mas após o Século I Ela foi apagada das escrituras. Uma inscrição dessa época foi descoberta contendo a frase “Para YHWH e sua Asherah” e aparece a imagem de uma vaca alimentando seu bezerro, o que poderia ser, inclusive, uma representação de uma mãe alimentando seu filho, ou ainda a ideia de que YHWH era o Altíssimo e tinha sua Esposa(10).

 

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Interessante é que encontramos em outra fonte, menções do Deus EL em comparações com Deuses gregos, como no controverso Sanconíaton (11).

Eu estou citando somente UM PONTO do Velho Testamento, que sozinho já rende anos e anos de estudos e pesquisas de acadêmicos e pesquisadores. Nem mencionei uma das questões mais famosa logo no Gênesis onde aparece “E faremos o homem a nossa imagem e semelhança”(12), o que renderia mais e mais postagens.

A ideia não é de forma alguma denegrir ou invalidar alguma religião ou crença, mas mostrar, com um pequeno ponto escrito em resumos de ideias, o quanto as coisas já estão misturadas e que o sincretismo histórico sempre esteve presente, fazendo livros e “verdades absolutas” serem facilmente contestados, pois não existe isso de verdade absoluta em nosso mundo, principalmente na Bruxaria.

Poderia, de fato, mostrar o mesmo com Panteões de Deuses que foram mesclados, absorvidos, derrubados ou adaptados em sincretismos que nunca incluíram os cristãos. O problema é que ninguém liga quando não envolve cristianismo, como se o sincretismo entre povos “não cristãos” fosse algo aceitável e com os povos monoteístas não o fosse. As pessoas que evitam tudo que “venha de lá”, desconhece a história e o envolvimento das religiões como um todo nas Tradições populares e que as influências nunca foram unilaterais, mas sempre em via de mão dupla.

A primeira parte tem como objetivo mostrar como houve sincretismos nada sutis e de como apenas uma dessas ideias estudadas de forma básica, podem mostrar coisas que fariam tanto boa parte dos ditos pagãos quanto dos ditos cristãos concordarem numa mesma atitude, que iria desde a reflexão, rever os próprios conceitos e até mesmo manter a mente mais aberta, até mesmo á cegueira da completa negação do que quebraria boa parte daquilo que acreditam.

Qual então seria a diferença entre as atitudes dos mesmos, quando ambos negam e batem na mesma tecla, dizendo que suas crenças são ‘originais’ e ‘puras’, portanto, são Verdades incontestáveis?

Se ambos mantem a mesma atitude, então não há muita diferença, apenas de que ambos querem tanto que algo seja verdade, que quando descobrem uma mentira, se agarram a mesma, repetindo, pregando e espalhando com tanto furor, que de longe podemos perceber que é uma tentativa frustrada de torna-la verdade. Nesse exato momento, os ditos pagãos agem exatamente como os ditos cristãos, cada um defendendo como verdade absoluta suas visões, sem perceber que possuem muitas coisas em comum, mais do que gostariam.

Pensando por esse lado, o que os torna tão diferentes?

É melhor que esta pergunta fique para uma possível reflexão.

 

wolfsitraahra

 

(1) “Eu disse: Vós Sóis Deuses, e todos filhos do Altíssimo”              

(2) As ligações sobre Bruxaria ficarão para a segunda parte, na próxima postagem.

(3) Judeus, Católicos, Protestantes e Muçulmanos.

(4) Salmo 82, versão Almeida revisada e fiel, King James Version, Versão Católica, entre outros.

(5) Os intervalos eram variados, mas normalmente duravam séculos.

(6) 70 filhos na versão Ugarítica e 77 ou 88 na versão Hitita.

(7) Meramente especulativo, porém, o nome ‘Yaweh’ não aparece em textos Cananeus, embora EL e seus títulos apareçam no Velho Testamento. O nome Yaweh aparece pela primeira vez num documento egípcio, para denominar “os nômades de Yaweh”, embora não exista comprovação da migração dos Hebreus para Canaã e nem citação ou referência alguma dos Egípcios quanto ao povo Hebreu.

(8) O nome de Anjos possui origens e similaridades com outras religiões e escritas próprias em Hebraico e no caso de Mikael/Mikail, seu nome possui algumas variações. Sem contar que “Anjo” é um termo que merece mais profundidade para ser melhor entendido, do que a forma cristã e moderna de tratar do assunto.

(9) O que é compreensível, visto que o Velho Testamento é uma junção de diversos livros, fora de ordem cronológica e de tempos diferentes, criado/reescrito/compilado entre o século VI ou V antes da Era Vulgar; ou seja, não se trata de um livro tão antigo assim, nos moldes em que ele ‘pretende se mostrar’.

(10) Professor William G. Dever, “Did God Have a Wife? Archaeology and Folk Religion in Ancient Israel”.

(11) Uma Obra bem famosa, mas sem origem comprovada.

(12) Pois no original e em várias versões traduzidas está no Plural, como se fosse mais de um criando o homem.

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