Algumas palavras sobre Bruxaria

É típico dos genuínos homens-de-conhecimento utilizar o que quer que esteja à mão e mudar o rumo de todas as influências, independentemente da sua procedência religiosa, para as causas secretas da Arte. É por isso, então, que a Arte Antiga adota para si mesma uma grande opção de atitudes e métodos, estendendo-se desde simples tópicos de feitiçaria até às mais altas formas cerimoniais de conjuração.
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Após tantos anos, posso dizer que tenho contemplado a loucura e o desespero das pessoas num geral. Em diferentes tópicos de assuntos diversos, é possível observar que toda a histeria e devaneio possuem coisas em comum.

É claro que irei tentar me ater ao tópico proposto, mas mesmo assim será de alguma relevância fazer pequenas andanças em áreas periféricas.

Não vou falar que a Bruxaria em si tem sofrido, pois como não se trata de algo central e nem mesmo limitado, é como se fosse tanto uma Arte quanto uma entidade viva, não necessitando de defensores ou de algum tipo “pena” ou sentimento do gênero.

O que eu posso afirmar é que a histeria e desespero das pessoas comuns, bem como suas futilidades, impactam numa visão contemporânea de como enxergamos a Bruxaria em si e de como alguns falsos propagadores (normalmente pessoas desinformadas ou na maioria das vezes desesperadas) giram em torno do intuito de formar um alicerce seguro em cima de algo realmente frágil e inexistente: Essas pessoas não sabem onde estão.

Estou iniciando um texto sobre Bruxaria Tradicional, que infelizmente tem sido vista e cunhada como mais uma prática “pós-wiccana”, que no final das contas acaba sendo vista como a mesma coisa com nomes diferentes, como as ideias falidas de “Bruxaria Natural”, “Bruxaria Ancestral”, a coitada da “Strega” e outros rótulos criados de forma vazia, sem o mínimo de contexto e que, no final, resumem suas práticas ao mesmo escopo típico da Wicca.

Deixando claro que não vou julgar a Wicca em si, mas apenas uso como exemplo, pois infelizmente, mesmo sendo uma religião tão nova, veio com um contato além do necessário com o público, com a massa e, acabou que suas práticas sincréticas são a base para todos esses ‘pseudo-bruxos’ se inspirarem (e copiarem) e que acabam buscando títulos e reconhecimentos pelos feitos que nunca fizeram, pelo poder que não possuem e, principalmente, pela legitimidade que nunca existiu.

Quando falamos em Bruxaria, não poderíamos estar falando de religião. Não. Bruxaria nunca foi religião. A Wicca é uma religião que ‘usa elementos de bruxaria’, da mesma forma em que usa elementos de magia cerimonial e sincretismos variados adotados por Gardner, tirando, claro, aquilo que poderia ofender ou chocar a pessoa mundana e tirá-la de sua famosa “zona de conforto”(2).

A Bruxaria ao longo da história sempre fora uma arte variada, nunca centralizada, sem cultos ou regras. A Bruxaria é uma Arte sem Nome, uma Arte Indomável, e não poderia ser de fato (como nunca fora) uma religião.

A diferença básica na bruxaria ao longo da história no que diz respeito a ‘bruxa’ e ao ‘sacerdote’ está na permissão ou comando da religião vigente.

Na antiga mesopotâmia existiam relatos de sacerdotes e bruxas em disputas mágicas, bem como leis proibindo a bruxaria. O fato é que a bruxa e o sacerdote eram equivalentes em suas práticas e muitas vezes realizavam os mesmos sortilégios e métodos para realizar alguma mudança, cura, bênção ou maldição. A diferença era que o sacerdote era “autorizado” pelo divino e pela sociedade, bem como limitado pelo seus dogmas e regras, enquanto a bruxa, não somente usava o que o sacerdote e a religião vigente disponibilizava, mas também, a sabedoria de “Deuses estrangeiros” e métodos de outros grupos e templos, formando um repertório de conhecimentos que acabavam por ser mais vasto do que o do próprio sacerdote; isso tudo sem nem mesmo precisar seguir as regras e dogmas, as mesmas obrigações dos sacerdotes, nem mesmo sua ética ou moral (da época, obviamente).

Na Grécia, os documentos encontrados sobre sortilégios de bruxaria, misturavam inúmeros Deuses e fórmulas mágicas diferentes (incluindo Deuses egípcios e de outros povos), no intuito de acessar certos poderes para fazer uso dos mesmos.

Atualmente, no Haiti, na religião Vodu, aqueles que não pertencem a religião e que mesmo assim fazem uso dos poderes de forma “não autorizada”, com fins próprios, também são chamados de bruxos.

Isso apenas alguns pequenos exemplos de como “a bruxa” sempre fora vista e de como sua atuação sempre tenha existido, desde o início dos tempos, de variadas formas, mas que sempre tenha causado medo e fascínio, principalmente pelos seus poderes e conhecimentos.

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A Bruxaria nunca esteve limitada a uma visão europeia ou pagã. Não, os bruxos sempre foram aqueles que souberam identificar os poderes existentes nos cultos, religiões, grupos, natureza, Anjos, Demônios, Deuses e são aqueles que são capazes de usá-los para o seu próprio intento, seja pelos Caminhos Tortuosos da Arte ou de seu próprio, seja em qual roupagem eles se apresentem, seja em qualquer religião que se escondam (3).

A Bruxaria, seja em qualquer sociedade ou época, nunca foi algo bem visto e aceito. Nunca houve alguma época em que todos eram bruxas. A Bruxa sempre fora temida, ao mesmo tempo que era procurada quando nem os homens e nem a religião conseguia resolver um dado problema ou quando os assuntos eram tão delicados que nem o sacerdote ou a sociedade em questão poderiam ficar sabendo.

A partir do momento que a Bruxaria em si depende de inúmeros fatores e, principalmente, da quebra de paradigmas e regras dogmáticas por aqueles que trilham o Caminho da Arte, podemos constatar que, de fato, não é um Caminho que todos sejam capazes de percorrer.

As pessoas costumam fantasiar e florear de forma irresponsável os seus desejos e carências. Tentam distorcer etimologias, fatos, documentos, ideias; tudo para tentar corroborar com suas fantasias pessoais de que “bruxas são boas ou fazem somente o bem” ou de que “bruxaria é a Religião Antiga”, numa insistência absurda que contradiz qualquer relato histórico e também daqueles que trilham o Caminho ‘pelas sombras do anonimato’, como se fosse possível camponeses analfabetos adquirirem espadas, cálices, pentáculos e cetros; como se soubessem os exatos pontos cardeais ou como se soubessem traçar círculos exatos para realizar rituais; como se Magia Cerimonial fosse algo realmente “do campo”.

De forma alguma estou citando no texto que ‘bruxas são más’, apenas digo que estão acima do bem e do mal. Que o ‘certo’ e o ‘errado’ nada mais são do que conceitos próprios, que mudam conforme a sociedade a religião vigente e que as bruxas são acima de tudo isso.

A Bruxaria Tradicional possui inúmeras expressões em vários países, povos, culturas, na forma de que seus Clãs, Covines ou qualquer outro nome que se intitulem, dependem de suas Tradições e do folclore local (ou de pessoas que possuam contato com ensinamentos e tradições ‘de fora’ e acabam por adaptar ou ‘juntar’ a sua ‘bagagem’, dando origem a novos conceitos) e de suas práticas e poderes.

A Bruxaria nunca foi algo limitado ou definido. Nunca foi pertencente a algum grupo, instituição ou dogma.
Nunca houve algum “conselho” ou alguma “autoridade” que fosse realmente reconhecida. Não. A Bruxaria em si, nunca fora de domínio de alguém em particular e, a diversidade em que se encontra em diversos grupos sérios é que a faz ser como uma entidade viva e poderosa, infinda e renovadora.

Aqueles que enxergam esta senda apenas como práticas vazias, não compreendem a sabedoria e o poder em nenhuma de suas facetas, pois o Bruxo entende o quão próximo está dos Deuses, da terra, dos mortos e de suas tão variadas entidades.

A Bruxaria não é branca ou negra, não é clara ou escura, não é alta ou baixa. A Bruxa não tenta se “religar” a alguma coisa, uma vez que nunca esteve separada da ‘fonte’. A Bruxa vive sua época e usa aquilo que possui ao seu alcance. Reconhece os poderes em suas diferentes máscaras e as usa para o intento da Arte a aos seus próprios. É o Caminho sem rota. A direção onde a bússola é o teu próprio sangue. É a contemplação sem palavras; É a escrita sem texto; A Palavra que não pode ser falada; O Sussurro que não pode ser ouvido.

Qualquer instituição ou grupo que possua a ousadia (e a ignorância) de se dizer com alguma autoridade sobre a Bruxaria Tradicional, que tente limitar o ilimitado, que tente definir aquilo que a poesia em si não consegue definir, não pertence aos grupos e nomes que ficam sob a sombra deste nome, que nada mais é do que somente isso: um nome. Que de forma alguma define por completo, mas que apenas indica a origem de alguma parte de sua essência, que se cruza com os tantos Caminhos nomináveis e inomináveis daquilo que chamamos de “Arte Sem Nome”.

O Caminho da Bruxaria Tradicional poderia ser ilustrado como uma expressão da Arte sem Nome; mesmo que isso seja apenas mais uma de suas muitas máscaras.

“A Arte dos Sábios simplesmente é; mesmo sem definição.”(4)

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(1) Ensaio de Andrew D. Chumbley, “O que é Bruxaria Tradicional”;

(2) Aqui eu me refiro às práticas que envolvam sangue, sacrifícios, sexo, violência, profanação, dor, parte de animais, parte de cadáveres, enfrentamento de medos, quebra de paradigmas, necromancia, maldições e tudo aquilo que as pessoas comuns temem,  renegam e fogem. 

(3) Bruxas, assim como qualquer pessoa, podem cultuar ou homenagear Deuses e Entidades de qualquer tipo ou ter seu conjunto de crenças. Mas isso é algo de cunho pessoal, não da Bruxaria em si.

(4) Citação de Adimiron Ben Theli.

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6 Respostas para “Algumas palavras sobre Bruxaria

  1. Até a pouco tempo eu fazia parte de um grupo Wicano, mas não estava completa, satisfeita e vi tudo isso que vc colocou aqui, mas é bem complicado, pq só eu não consigo aprender e aqui não existe ninguém para me ensinar, então procuro sempre observar, ler e prática, da melhor forma que posso.

    Luz e Paz

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    • Jeane Ramos,

      Entendo, mas é a insatisfação que se torna o combustível para podermos avançar.
      Quem é conformado com tudo, fica parado no mesmo lugar.
      A Leitura atualmente tem sido uma ótima opção para aqueles que procuram um Caminho mais sério e, claro, a prática também.
      Ao longo das postagens, vou fazer referência a alguns autores e, caso deseje, tente ler alguma de suas obras.
      Caso saiba falar inglês, sua gama de opções vai crescer de forma significativa!
      Na lateral do meu blog, tem outros links de amigos que escrevem também, voltados a formas diferentes, mas interessantes de se ler.

      Agradeço o comentário,
      Abs,
      Sorath111

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  2. Atualmente me encontro em pleno processo de prosseguir neste caminho sombrio e sem rotas definidas, soltando as amarras de formas estanques e engessadas. Ao longo da minha vida, sempre me achei um alienígena em grupos que se diziam wiccanos, e cheguei inclusive a me afastar da Bruxaria por um bom tempo, decepcionado, mas o chamado é forte demais, ele lateja na carne e ossos da gente. Existem poucos grupos sérios, mas a necessidade de um grupo foi mais uma das amarras das quais tive que me livrar, senão ficaria para sempre paralisado. Gostei muito do site. Parabéns!

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    • Saudações Rafael,

      Fico grato pelas palavras e pela qualidade das observações que você expôs.
      Já passei por esse processo de grupo e, realmente, é decepcionante, mas extremamente necessário para que possamos ver além.
      É essa dor e essa indignação, de perceber que o Caminho nos faz descobrir que a jornada é sempre solitária, pois apenas nós podemos percorrê-lo.

      Depois que nos livramos da necessidade do “pertencer” ou do “fazer parte” de grupos e de meios é que realmente somos capazes de enxergar que nós já “pertencemos” e “fazemos parte” de tudo a nossa volta. Só assim podemos enxergar certas Verdades.

      Agradeço pelo comentário,
      Sorath111

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  3. As indicações de autores também tem me servido muito, haja vista que boa parte dos livros que se auto intitulam “de bruxaria” mais parecem escritos para pré-adolescentes. Nada contra os pré-púberes, mas é que já cheguei aos 30, e certas coisas não dá mais para engolir.

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    • A tal “Bruxaria” que a grande maioria segue como se fosse algum tipo de ovelha; que propagam como se fosse algum tipo de evangelho; que apoiam e defendem de forma cega; realmente é infantil e sem propósito real.
      Que bom que tenha chego aos 30 e esteja buscando por “mais”.
      Muita gente fica a vida inteira defendendo convicções falsas e infantis, na esperança de que continuem a preencher os buracos de suas próprias falhas e limitações.
      Bruxaria não é para qualquer um.

      Quem percorre O Caminho, sabe que estamos todos buscando e que assim deve ser.
      Todos nós percorremos esta Via Tortuosa…

      Agradeço novamente,
      Sorath111

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